Nunca, na História da Humanidade, soubemos tanto sobre o desenvolvimento da criança. E isso tem-se traduzido, em muitos aspetos, em melhorias muito significativas nos cuidados e na educação.
Se somos capazes de assumir a centralidade que a criança deve ter na vida das instituições e da sociedade, nem sempre parecemos suficientemente firmes na hora de impedir que os adultos vão alimentando a ideia, mais ou menos difusa, que são as crianças que têm que se adaptar ao ritmo do adulto. Será assim sempre que criamos entraves à compatibilização da vida profissional e familiar olhando, por exemplo, com desconfiança para licenças alargadas de parentalidade, ou para as licenças de amamentação. Será assim sempre que o Jardim de Infância (que faz, a muitíssimos níveis, um trabalho notável) não cria as condições para que as crianças que dela precisam, façam a sesta. Será assim sempre que a Escola faz das performances escolares o objetivo dos objetivos.
Se somos capazes de assumir a centralidade que a criança deve ter na vida das famílias, nem sempre parecemos suficientemente firmes na hora de impedir que os adultos vão alimentando a ideia, mais ou menos difusa, de que é função da criança dar resposta às necessidades do adulto. Será assim sempre que colocamos, sobre a criança, uma exigência desmesurada de desempenhos elevados na escola, na música ou no desporto, quase sempre com prejuízo do tempo e do espaço para brincar (com a preocupação com o desenvolvimento da capacidade de ir à luta a ombrear com uma espécie de delegação narcísica, que pode deixar a criança mais próxima de fazer de troféu do que de aprendiz entusiasmado).
Será assim sempre que, perante uma birra no supermercado, invariavelmente cedemos no boneco ou chocolate objeto da birra (alimentando a ideia de que basta uma birra com efeitos especiais para meter os pais no bolso, o que, se num primeiro momento, até pode sossegar a criança, a tenderá a deixar insegura a seguir, perante a ânsia dos pais em bloquearem qualquer manifestação sua de angústia) ou reagimos com um: vou-me embora e deixo-te aí, (que acicatando angústias de abandono e, dá a entender à criança – por mais que, evidentemente, não seja essa a intenção dos pais - que, se exagerar nas manifestações de raiva, se torna dispensável).
Será assim sempre que lhe dizemos para não chorar, para não fazer birras ou para dar beijinhos, sob pena da mãe, do avô, da tia ou da educadora ficarem tristes, como se fosse função da criança conter as angústias de quem é suposto conter as suas. Não é! Não que pais e avós não possam encontrar colo no colo que dão às crianças. Podem. E ainda bem! O que já não será razoável é colocarem sobre a criança a obrigação implícita de engolirem o que sentem para ampararem as fragilidades do adulto, pelo qual anseiam ser contidas.
Se, evidentemente, as crianças precisam de um quadro de regras claro, que as proteja e lhes balize o crescimento; precisarão, também, de cuidadores que, com firmeza e afeto, não desistam de acolher e legendar as suas angústias.
E, num ápice, o coração disparava em batimentos cada vez mais acelerados. Quanto mais o tentava acalmar, mais ele batia, até quase sair pela boca. Ficava de tal forma assustada quando aumentava o ritmo cardíaco que, quando se sentia mais frágil, dava por si a evitar as corridas de 4ª feira, com o grupo informal de atletismo que integrara, com entusiasmo, há um par de meses. Já os exames da Faculdade, que se aproximavam a passos largos, eram mais difíceis de evitar. Mais do que o medo dos exames em si, o que a angustiava parecia ser o medo do medo que estes lhe podiam despertar. Na verdade, a Maria gastava, por estes dias, muita energia a tentar evitar, o mais que podia, quaisquer situações que lhe pudessem despertar medo: deixou de andar em autocarros apinhados, em hora de ponta; cortou nas saídas com os amigos, sempre que estas incluíam um bar novo, e até o convite para café do Miguel, pelo qual suspirava há semanas, acabou por recusar com uma desculpa mais ou menos esfarrapada.
Nunca, na história da Humanidade, teremos tratado tão bem a infância como nos nossos dias. Democratizámos o acesso à Escola. Criminalizámos maus-tratos violentos que ainda há poucas décadas eram ignorados ou perspetivados como práticas educativas aceitáveis. Fomos capazes de formalizar os direitos da criança, e de criar estruturas (a carecer de melhorias, é certo) para os proteger. Talvez com a exceção da diminuição substancial do brincar ao ar livre que se tem vindo a agravar, e da omnipresença dos ecrãs, nunca, na história da Humanidade, teremos tratado tão bem as crianças como hoje. E, ainda assim, está tudo por fazer!
Na era da Inteligência Artificial, parecemos, ainda, conhecer mal as crianças, e distrairmo-nos, vezes de mais, em relação a aspetos essenciais do seu crescimento. Às vezes por falta de conhecimento. Outras, porventura, porque os episódios dolorosos da infância dos adultos lhes entorpecem a sensibilidade e a sabedoria (construídas ao longo de milénios de cuidados às crias).
Abriu a porta do armário, não para tirar a bola como costumava fazer, mas para entrar e se aconchegar no escuro, em posição fetal. Quando, um punhado de segundos depois, eu abria a porta, incandescia-se-lhe o rosto num sorriso luminoso.
Depois de repetir vezes sem conta estes movimentos pendulares de esconder-se/ser encontrado/ esconder-se/ser encontrado, o Francisco perguntou-me se tinha filhos, primeiro; onde vivia, depois, e, por fim, se recebia outros meninos. Expliquei-lhe que vivia suficientemente perto para estar sempre à espera dele na nossa hora; e que podiam vir todos os meninos do mundo que aquela continuaria, sempre, a ser a sua hora. Só sua! Não satisfeito, continua:
Há anos que o ressentimento vinha a crescer. Partilhava, com as amigas, as mágoas de um casamento que se desmoronava cada dia mais um bocadinho. Nos últimos tempos, os jantares na última 6ª feira do mês, que religiosamente mantinham, mais pareciam uma espécie de lamento partilhado sobre a falta de comparência dos maridos ao romantismo, à participação nas tarefas domésticas, ou à forma como substituem as palavras por murmúrios na hora de conversarem sobre como se sentem, ou como podem revitalizar a relação. Era ali, naquele grupo de amigas, que se sentia acolhida. Era ali, naquele grupo de amigas, que pensava alto as ideias: primeiro sobre como salvar o casamento, depois sobre como assumir que o queria terminar.
