E, num ápice, o coração disparava em batimentos cada vez mais acelerados. Quanto mais o tentava acalmar, mais ele batia, até quase sair pela boca. Ficava de tal forma assustada quando aumentava o ritmo cardíaco que, quando se sentia mais frágil, dava por si a evitar as corridas de 4ª feira, com o grupo informal de atletismo que integrara, com entusiasmo, há um par de meses. Já os exames da Faculdade, que se aproximavam a passos largos, eram mais difíceis de evitar. Mais do que o medo dos exames em si, o que a angustiava parecia ser o medo do medo que estes lhe podiam despertar. Na verdade, a Maria gastava, por estes dias, muita energia a tentar evitar, o mais que podia, quaisquer situações que lhe pudessem despertar medo: deixou de andar em autocarros apinhados, em hora de ponta; cortou nas saídas com os amigos, sempre que estas incluíam um bar novo, e até o convite para café do Miguel, pelo qual suspirava há semanas, acabou por recusar com uma desculpa mais ou menos esfarrapada.
Discorria sobre experiências de medo e desamparo na adolescência, quando me contou um trecho de um livro de aventuras que lera à época: teria havido um cataclisma na Europa, e os únicos sobreviventes terão sido os que escaparam num grande navio, Atlântico adentro. Face à necessidade de racionar a água e os alimentos, o número de crianças permitidas no navio era muito limitado, e o controlo muito apertado. Rose cresceu, assim, “ilegal”, escondida no navio dos sobreviventes, a escapar às operações frequentes de controlo e vigilância. De cada vez que estas operações ocorriam, o pai escondia-a numa espécie de arca camuflada e sussurrava-lhe: não tenhas medo! Mitigados os efeitos do cataclisma, Rose regressa à Europa e torna-se numa temida guerreira, líder de um grupo rebelde. A Maria enfatiza: “ela era guerreira, era muito corajosa, está a ver! Mas tinha medo! De cada vez que ia para uma emboscada ou para uma batalha, tinha medo. Mas lembrava-se sempre do pai a sussurrar-lhe ao ouvido: não tenhas medo e avançava com bravura. Avançava com medo. Mas com muita bravura, ao mesmo tempo”.
Talvez o que a Maria estivesse a querer dizer fosse que pensar as pessoas e as histórias da sua vida, arrumando-as e desarrumando-as as vezes que forem precisas, a poderia ajudar a encontrar quem (dentro de si, e na vida lá fora) lhe possa sussurrar, num tom afetuoso e seguro: não tenhas medo! Talvez o que a Maria estivesse a querer dizer fosse que todos precisamos de quem (dentro de nós, e na vida lá fora) não se assuste com os nossos medos, e nos ajude a abrir espaço para os pensar e configurar em palavras e estórias, enfrentando-os connosco. E que essas pessoas, de tão especiais que são, ganham, em nós, a vida eterna (por mais que possam, inevitavelmente, partir).
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.


