E se marcássemos às 9?

05Nov.

Precisamos (todos!) do que nos ligue. Precisamos (todos!) de nos sentir parte de algo maior. Talvez seja um bocadinho isso que acontece quando, num estádio de futebol efervescente, num concerto, ou numa manifestação política ou religiosa, por exemplo, a intensidade ou a comoção parecem ligar pessoas tão diferentes entre si. Talvez precisemos, todos, desta espécie de sentimento tribal. E ainda bem! Afinal de contas, sempre foi a capacidade de nos ligarmos, apesar das diferenças, que foi tornando mais humana a humanidade.

22Out.

Fala da família com a alma toda. Da avó com o coração do tamanho do mundo, aos irmãos (mais velhos) com quem aprendeu a conciliar rivalidade com abraços cúmplices; passando, claro, pelos pais que lhe foram dando (com todos os defeitos que os pais bondosos também têm) o colo e a autonomia para crescer bem. Talvez por isso, a Bárbara, mulher com mundo, brilho no olhar e sangue na guelra, se venha a sentir crescentemente desconfortável com aquilo que sente ser o ressuscitar do controlo dos pais. Desde que regressou de uma experiência profissional no estrangeiro e assumiu, pela primeira vez, uma “relação séria”, que os sente a intensificar recomendações e comentários acerca do seu visual, da forma como decora e arranja a casa, dos investimentos financeiros que devia ou não fazer, etc., etc.

25Jul.

Há muito que não ia a um Festival de Verão. Não que tivesse deixado de gostar de música. Mas o último tinha sido tão dolorosamente inesquecível que, nos anos seguintes, só os outdoors a anunciar as bandas a deixavam de cabelos em pé. Passaram cincos anos desde que se desunhou para surpreender o João com dois bilhetes para o esgotadíssimo concerto da banda que tinham adotado como a “oficial” do seu amor. Se a reação frouxa João não deixou de intensificar umas quantas luzes de alerta que, há muito, vinham crescendo dentro da Maria, o pior estava para vir. Toda a gente parecia envolvida pela atmosfera intensa do concerto. Toda a gente menos a Maria e o João. Ele já não disfarçava o enfado. Mas a Maria não desarmava. Abraçou-o. Deu-lhe a mão. Mas nada encaixava. Há muito que pareciam dois corpos estranhos. Nessa mesma noite, o João já não dormira em casa.

02Jul.

 Vamos, de uma forma mais ou menos batoteira, olhando para o feitio como um facto consumado, mais ou menos inevitável.  Da mesma forma que nascemos loiros ou morenos, tudo se passaria como se a genética determinasse, por si só, se somos mais reservados ou mais expansivos; mais medrosos ou mais afoitos; mais frios ou mais afetuosos; mais autónomos ou mais dependentes; mais ou menos inteligentes, etc., etc. E, quanto a isso, não haveria muito a fazer. Afinal de contas, como diria a Gabriela: “eu nasci assim, eu cresci assim…”.

21maio

 A cada nova discussão, o Bernardo corre para o escritório lá de casa, alegando que a Maria está muito exaltada para poderem conversar. É assim quando a Maria dá um murro na mesa e puxa pelo melhor dos seus agudos. É assim a cada apelo sereno da Maria para conversarem de forma franca e aberta sobre tudo o que os aproxima e os tem separado… devagarinho!

 Por mais que sejam já mais as noites em que o Bernardo acaba por adormecer, entre processos, no sofá do escritório; por mais que há muito não consigam falar se não sobre funcionalidades do quotidiano, a cada apelo – mais exuberante ou mais sereno – da Maria, o Bernardo responde com: “hoje não é bom dia para falarmos”. Não é muito diferente quando a Maria o irrita ou magoa: barrica-se no escritório a trabalhar. Afinal de contas, não gosta de conflitos nem de discussões.

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