Há silêncios que aproximam. De tão quietos, permitem que vamos brincando com os nossos pensamentos, lado a lado com o outro, numa espécie de silêncio-criatividade. Melhor ainda, há silêncios que dão banda sonora a olhares que, de tão dentro que olham, se escutam e entrelaçam (para lá das palavras). Serão assim uma espécie de silêncios-abraço. Mas era, principalmente, dos silêncios-ruído de que me falava a Sara. Daqueles que, de tão ausentes, cavam fossos na relação. Daqueles que, de tão hostis, parecem ter tantos picos quantos os de um ouriço-cacheiro assustado.
O penteado novo que, finalmente, ousara fazer parecia distender-lhe o rosto. Não tanto, ainda assim, como o casaco que o marido lhe oferecera no aniversário de casamento. Pela primeira vez, em anos, o presente era a sua cara. Ao entrar no escritório, na manhã seguinte, a Maria sentia-se leve, confiante e bonita como, na verdade, há muitos anos não se sentia. Denunciavam-na o penteado e o casaco, mas muito especialmente um brilho nos olhos que há muito não se lhe via. Talvez por isso, a Marta – confidente dos queixumes e agruras em que a Maria há muito se sentia enovelada - não tenha resistido a atropelar o Bom dia com um desdém indisfarçável, um reparo ao penteado e outro, mais vincado, ao casaco. O casaco que era a cara da Maria! O casaco que o marido se desunhou para encontrar, como que para lhe dizer: até posso andar distraído vezes de mais, mas ainda sei olhar para dentro de ti! Atónita, a Maria ficou sem reação. Entre a desilusão e um jorro de raiva contida, tentou ignorar a investida da Marta. Afinal de contas, é isso que as pessoas sensatas fazem, pensou de si para si.
Uma pianista muito talentosa, idolatrada pelo público e pela crítica, preparava-se para iniciar um concerto numa carismática sala de espetáculos. Aclamada efusivamente mal pisa o palco, senta-se ao piano e procura, na plateia, o companheiro, como que para se sossegar no seu olhar. Mas não encontrou mais do que uma cadeira vazia. E, ato contínuo, as mãos começam a tremer-lhe e os suores frios tomam-lhe todo o corpo. Até que, ao ver o companheiro (ainda que atrasado) tomar o seu lugar, se volta a sentir a talentosa e confiante pianista, pronta a comover plateias. Lembrei-me desta cena de filme quando, ao ouvir um trecho de uma entrevista do Cristiano Ronaldo, ele dizia, a propósito da perda do pai, que o que mais lhe custava era o pai não ter podido ver onde chegara, como que dando a entender que só vale a pena ser o melhor do mundo quando se tem para quem.
O João tem uma mão cheia de quilos a mais e é demasiado preso de movimentos para ser bom a jogar à bola. Nas aulas, o rubor toma conta de todo o seu rosto só de imaginar que um Professor o pode interpelar para ler um texto em voz alta, ou para ir ao quadro resolver um exercício. O Manuel e o Francisco, intuindo o pouco à vontade do João, não perderam tempo. Começaram a ridicularizá-lo, levando consigo uma parte muito significativa da turma.
Foi crescendo com a ideia de que não era bom a fazer amigos. Nem no futebol, no basquete, ou na relação com a escola, a aprendizagem e os professores. Muito menos a fazer os pais sentirem-se orgulhosos das conquistas que, invariavelmente, pensava nunca estarem ao seu alcance. Por mais que tivesse um conjunto de competências de base para a relação ou para a aprendizagem, era difícil para o Francisco não se sentir uma espécie do patinho feio da família, da escola ou das atividades extracurriculares.
