A Maria foi crescendo muito metida consigo, com a ideia difusa de possuir um qualquer irreparável defeito de fabrico. Só isso explicaria que as notas ficassem sempre aquém das da irmã e das primas. Só isso explicaria que, em toda a infância e adolescência, nunca se tenha sentido verdadeiramente acolhida em nenhum grupo. Só isso explicaria que se fosse sentindo vezes demais uma espécie de corpo estranho, que ninguém conseguia decifrar.
Não se lembra de uma única chamada de atenção dos Professores, em criança. Todos – professores, funcionários, pais dos colegas – lhe elogiavam a delicadeza, o bom trato, a inteligência, o foco nas tarefas escolares, o modo como ignorava olimpicamente as provocações dos colegas ou como geria conflitos no recreio com a maturidade de uma adulta muito bem resolvida. Com os pais não era muito diferente. Em toda a sua infância, não recorda mais do que duas ou três chamadas de atenção mais vigorosas. Recorda-lhes o motivo, mas principalmente a culpa avassaladora e o medo a perder de vista com que as viveu.
As crianças vivas fazem birras! E ainda bem! Birras no supermercado, birras para não ir para a cama, para não comer a sopa, para não fazer os TPC, para ver mais televisão ou não largar o tablet, etc., etc. E, muito compreensivelmente (atendendo às mil e uma preocupações que vão tendo de gerir – do trabalho às contas para pagar, das negativas do mais velho às birras do mais novo, passando pela saúde da avó ou pela perda de um amigo próximo, por exemplo) nem sempre os pais conseguem estar tão disponíveis e seguros quanto são capazes, na hora de mostrar as linhas vermelhas que devem balizar as reivindicações das crianças.
Não havia música de fundo. (Só burburinho). Nem glamour. (Só fumo no ar). Nem flores. (Só amontoados de beatas nos cinzeiros). Talvez não fosse, de todo, o cenário que se imagina para ouvir histórias de amor. Mas foi ali, no último dia do ano, bem no meio de uma sala de fumo de um grande aeroporto internacional, que um jovem australiano, com a preciosa ajuda de uma bem-disposta senhora holandesa, mostrou que não há guetos nem interditos para as histórias de amor.
Consumidor voraz de cinema, o Pedro costumava falar de si através dos filmes e séries, na (pouco) secreta esperança que eu o pudesse ajudar a ligar os enredos e as personagens, com os novelos da sua vida. Uma das suas personagens favoritas era o Giusepe, pequeno herói de um velho filme, que uma tia avó lhe dera há muitos Natais atrás. De sorriso reguila e joelhos esfolados de tanto trepar às árvores e saltar muros, o Giuseppe foi apanhado de rompante pelo terror Nazi, como milhões de outros meninos (e graúdos) de origem judia. Sempre que a mãe ouvia as passadas pesadas dos soldados a subir a velha escadaria de madeira que dava acesso à casa, escondia-o numa espécie de alçapão secreto. E dizia-lhe, numa voz terna, mas firme: “não tenhas medo!” A cena repetiu-se vezes sem conta, até que, numa manhã fria de janeiro, Giuseppe, escondido no alçapão, foi o único judeu do bairro a não ser levado pelos soldados das botas pesadas.
