E se marcássemos às 9?

28Dez.

Gosto da ideia de se festejar o ano novo. Gosto de tudo o que sirva de mote para as pessoas celebrarem juntas! Mas a passagem de ano será muito mais do que uma festa qualquer. Tem uma dimensão simbólica (mais ou menos mágica) que a associa à possibilidade de recomeço. Afinal de contas: “ano novo, vida nova!”

11Dez.

As luzes dão um brilho especial à Baixa da Cidade. Os mercadinhos de Natal, a pista de gelo, as ruas cheias de gente, os vendedores de castanhas e a árvore estrategicamente posicionada bem no meio da praça completam o cenário. Mas nem a vista privilegiada que a grande janela do seu escritório abre para toda esta beleza ajuda a Maria a reconciliar-se, um bocadinho que seja, com o Natal. Tudo a irrita nesta época: as filas intermináveis para o trabalho (que culpa tem ela que o escritório seja mesmo no centro da cidade?!), o entusiasmo da Marta (a sua colega da secretária em frente) com o espirito natalício, os filmes que invadem todos os canais de televisão. Chega o 1º de dezembro e já só suspira por janeiro!

20Nov.

A Maria faz parte dos quadros da função pública há mais de 20 anos. Não está na secretaria por estes dias. Já conta com 3 baixas psiquiátricas no currículo. Depressão diz o relatório. O Inácio, mais sonolento a cada dia que passa, não dorme 3 horas seguidas vai para um ano. À noite, apaga a luz e acende-se a angústia. As preocupações, que o cansaço e a ocupação vão adormentando durante o dia, vêm em catadupa na hora de dormir. Parte da fatura tem sido paga pelas máquinas industriais: a rapidez e eficiência com que sempre as reparou e afinou têm vindo a diminuir a olhos vistos. As linhas de produção ressentir-se-ão em breve. E, com elas, a faturação da empresa.  Vinha correndo bem a vida ao jovem Bernardo.

06Nov.

  Sempre foi um exemplo. Para os colegas. Os primos. Os vizinhos. Na escola, no ballet, na música ou na catequese. Foi crescendo com a ideia de que o erro era coisa de fracos e que, a repetir-se, poderia, no limite, levar à prescrição: afinal de contas, dos fracos não reza a História! Talvez por isso, se fosse sentindo sempre muito mais confortável num mundo de regras. O importante era fazer direitinho. Cumprir e cumprir... por cumprir. Sem questionar ou levantar ondas. Cada teste escolar (por mais que dominasse a matéria de trás para a frente) era uma espécie de prova dos nove do seu valor enquanto pessoa. Passava sempre com distinção: na escola, no ballet, na música ou na catequese. Mas sentia, ainda assim, que ficava sempre aquém. Como se a possibilidade de errar a perseguisse por todo o lado, sem que os sucessos fossem capazes de estancar o medo, para lá do regozijo do momento.

23Out.

Desde muito cedo que ouvia, com insistência, que era super-inteligente. Diziam-no a Educadora e a Professora do 1º ciclo. Dizia-o a avó, dando-o como exemplo para os outros netos. Repetiam-no as tias, a cada almoço de família. Mais discretos os pais não conseguiam, ainda assim, resistir à tentação de o exaltar sempre que a vizinha da frente batia à porta para, à boleia de uma qualquer desculpa, se vangloriar da bolsa no estrangeiro que o seu filho mais velho havia conseguido. Exageros à parte, o Bernardo sempre foi, de facto, um rapaz inteligente.

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