Talvez nunca, como hoje, tivéssemos podido sonhar com um grande amor (ou não fossem os casamentos por amor uma feliz “invenção” recente), uma família feliz (ou não fosse a generalização das manifestações abertas de afeto uma feliz “invenção” recente), uma rede próxima de amigos e um projeto profissional que permita casar realização com autonomia financeira. Apesar de todos os imensos males do mundo (da gravíssima crise humanitária dos refugiados, ao terrorismo, passando pelas crises económicas e pelo desemprego, pela xenofobia, violência e maus-tratos infantis, por exemplo), talvez nunca como hoje, na história da Humanidade, tivéssemos podido sonhar e reclamar para nós, de forma tão alargada e democrática, a Felicidade. E isso parece-me - apesar de todos os males do mundo – uma extraordinária conquista!
Diz – num tom muito mais irritado do que displicente ou sobranceiro – que não consegue estudar. Foi por isso e pela “estúpida mania de bloquear nos exames” que teve um rotundo chumbo na prova que lhe permitiria terminar o Secundário e entrar no Curso que, de forma muito envergonhada, ambiciona. De forma tão envergonhada que se apressa a dizer: “nunca na vida vou conseguir entrar”, irritando-se de forma veemente se alguém lhe chama a atenção para as possibilidades reais que tem.
Já nos conhecemos bem. Afinal, temos passado horas e horas a escutarmo-nos. O João é um tipo inteligente e com o coração no sítio. Veio para “desatar alguns nós que me atormentam”, disse-me, a primeira vez que se sentou comigo.
Diz-me, com a voz trémula: sabe, acho que há um lado meu arrogante, que me tem tramado a vida. Acho que sempre o tive. Lembra-se daquela história do grupo de jovens? Eu era muito novo. Era o mais novo do grupo. Era para aí a 2ª reunião que ia. Estava inseguro. E sabe como é que é quando se está inseguro: metemo-nos em bicos de pés.
Depois de um ano de ansiedade miudinha, exames e estudo empenhado, o João entrou, finalmente, no curso que sonhara. Desde que, há uns anos, foi ver o cortejo académico do primo que sonhava com a vida de universitário, com as festas e as noitadas, com a autonomia e o mar de pessoas e oportunidades que a Faculdade lhe ia trazer. Nos últimos dias antes da partida para a cidade que escolhera, sentia-se mais apreensivo. Comoviam-no os conselhos e gestos protetores dos pais, mas não lhe saía muito mais do que um: “que melgas, eu já sou crescido!”, como que não querendo dar parte de fraco.
A Maria é Professora vai para mais de 10 anos. Foi por gosto que escolheu ensinar Português. Mas isso era dantes. Há muito que a paixão pela literatura (em que se foi “refugiando” desde muito nova) perdeu terreno para a angústia miudinha que toma conta de si a cada viagem para a Escola. Sente-se desrespeitada, atacada, desvalorizada pelos alunos. Está tão inflamada que sente a mínima interpelação provocatória como mais um atestado de incompetência. Sente-se incapaz de dar um murro na mesa e de mostrar quem é o Professor, quanto mais de pôr no bolso os 2 ou 3 alunos que parecem ter um gostinho especial em “picar” a Professora.
