O bebé precisa de quem o olhe, muitas e muitas vezes, com tal encantamento que não lhe restem grandes alternativas que não seja sentir-se o special one de entre os special ones. Este sentimento de se ser amado será o tónus que alavanca o crescimento mental. Winnicott dizia-o numa formulação muito bonita: o primeiro espelho do bebé é o olhar da mãe (do pai, e de todos quantos cuidam).

  O bebé precisa de quem o sonhe e adivinhe. De quem lhe dê um sentido ao choro, ao sorriso, às lalações, à inquietação, à ternura, à raiva ou à alegria. Precisa desta rêverie dos cuidadores (como aprendemos com Bion) para desenvolver a capacidade de pensar as emoções e crescer no plano mental.

  Se esta fórmula: ser amado x ser compreendido é essencial para o crescimento mental (em todas as idades), porque é que, vezes de mais, nos desencontramos da sensibilidade, que manifestamente temos, na hora de olhar o outro? Porque é que, tantas e tantas vezes, poupamos nas palavras na hora de legendar o que sentimos no, e com o outro?

  Fá-lo-emos sempre que, numa relação amorosa, não traduzimos em palavras, a angústia ou a tristeza que sentimos no companheiro (deixando-o sozinho com o que sente). Fá-lo-emos sempre que, perante um adolescente, lhe permitimos fechar-se no quarto, sozinho com a tristeza ou a raiva, sem lhe sinalizarmos que o sentimos triste ou zangado, e sem ensaiarmos hipóteses explicativas que, mesmo que falhem, lhe asseguram que não desistimos de o compreender. Fá-lo-emos sempre que, com uma criança, nos limitamos a notar a desatenção ou a desmotivação, sem a olharmos com a curiosidade de quem a quer, verdadeiramente, conhecer.

  Se esta fórmula: ser amado x ser compreendido é essencial para o crescimento mental (em todas as idades) porque é que, tantas e tantas vezes, fazemos batota e esperamos que o outro faça todo o caminho até nós, adivinhando-nos, sem considerarmos precisar de ser claros nos apelos (numa espécie de convite de regresso à relação precoce, mais do que para fortalecer uma relação profunda, entre iguais)?

  Fá-lo-emos sempre que falamos por sinais de fumo, pedindo colo ao encontrão ou não conseguindo ser transparentes na hora de dizer: estou triste, estou magoado, estou desiludido e preciso de reparação e colo ou estou feliz e orgulhoso, evidentemente que espero que celebres comigo!

  Não poupemos nas palavras!