E se marcássemos às 9?

27Out.

 Estava entusiasmada. Mas nervosa. Afinal ia defender, perante uma plateia que admirava muito, o trabalho em que mergulhara com alma nos últimos anos. Começou a medo, com a voz trémula e o coração acelerado. Mas, com o passar dos minutos, foi-se soltando e explanando o trabalho com consistência, entusiasmo e qualidade, muita qualidade. Correu-lhe manifestamente bem e, no final, não cabia em si de contente. Até que a colega, com quem partilhara parte do projeto, a decidiu congratular com um sorridente: disseste tantos portantos. Atordoada com o golpe num primeiro momento, depressa pensou: és tão invejosa! Se pensas que me vais roubar o momento estás muito enganada! Mas a verdade é que o comentário da colega ficou a ecoar-lhe no pensamento.

11Out.

 Desde que, há uns anos, foi ver o cortejo académico do primo que sonhava com a vida de universitário, com as festas e as noitadas, com a autonomia e o mar de pessoas e oportunidades que a Faculdade lhe iria trazer. Depois de um ano de ansiedade miudinha, de exames e de estudo empenhado, o João entrou, finalmente, no curso e na Universidade que sonhara. Mas a pandemia trocara-lhe as voltas. Fora duro o 12º ano. Como é que pode não ser difícil gerir o medo de uma pandemia, as aulas online, primeiro, e o medo do regresso, depois? Como é que pode não ser difícil gerir o conflito entre o impulso (saudável!) para estar com o grupo de amigos, e o medo dos riscos e a culpabilidade que isso pode representar? 

20Jul.

 Ei-la a destruir vida social e económica; a disseminar doença e sofrimento; a expor, como há muito não se via, a insuportável chaga da pobreza, ou a escavacar as fissuras da saúde mental, que estariam antes (um bocadinho) menos expostas. A pandemia de covid-19 é, porventura, o maior e mais global desafio da Humanidade em muitas décadas.

17Jul.

 A Maria foi crescendo muito metida consigo, com a ideia difusa de possuir um qualquer irreparável defeito de fabrico. Só isso explicaria que as notas ficassem sempre aquém das da irmã e das primas. Só isso explicaria que, em toda a infância e adolescência, nunca se tenha sentido verdadeiramente acolhida em nenhum grupo. Só isso explicaria que se fosse sentindo vezes demais uma espécie de corpo estranho, que ninguém conseguia decifrar.

20Abr.

 Aí está ela. Implacável e destruidora. A disseminar medo e sofrimento, raiva, angústia e tristeza. Aí está ela. A ceifar vidas humanas. A destruir vida social e económica. A pôr em modo pausa (por tempo indeterminado) os estilos de vida, de um planeta inteiro. E não sabemos, ainda, quando e como conseguiremos sair disto. E, de repente, nós que conseguimos voar como os pássaros, espreitar outros planetas, e explorar a profundidade dos mares, somos engolidos pela avassaladora incerteza de uma fera que não vai além de umas quantas medidas ultramicroscópicas de tamanho, as suficientes, ainda assim, para nos refletir, no espelho, a insuportável imagem da fragilidade humana.

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