O suficiente para lhe esmorecer o orgulho, nota a Maria, ao mesmo tempo que evoca as vezes em que das suas conquistas resultaram reparos e mas a mais e Parabéns! abertos e rasgados a menos. Ou, pior, todas as vezes em que silenciou os seus sucessos (e o prazer deles decorrente) por intuir que não teria quem consigo os celebrasse, de peito aberto e abraço grande. Ou, ainda, todas as vezes em que os viveu numa espécie de culpa e vergonha, como se, com eles, pudesse atropelar algumas das pessoas de quem mais gosta. Em jeito de síntese, a Maria recupera o refrão de uma canção dos Deolinda para dizer que, às vezes, uma ou outra pessoa importante para si lhe fazia sentir, de forma mais velada ou mais aberta: o teu bem faz-me tão mal! Recorda, mais tarde, uma colega com quem trabalhara há muitos anos e com quem praticamente não falava desde então. Até ao dia em que, do nada, recebeu uma mensagem sua, a dar-lhe os Parabéns pela altíssima qualidade dos seus relatórios técnicos. Pontua com um enfático: Foi de uma bondade, não lhe sei explicar! Acho que a Marta não tem a noção do quão foi importante para mim aquela manifestação espontânea e desinteressada! A Marta é, de facto, uma pessoa muito especial! No início das nossas carreiras, quando trabalhámos juntas, concorremos as duas a um prémio para jovens profissionais. Eu tive a sorte de ganhar! E ela ficou em segundo. Mal saíram os resultados ela ligou-me e disse, palavra por palavra: sacana, ganhaste tu! Ai que inveja! Parabéns! Agora, por castigo e celebração, vá tudo junto, tens de pagar o jantar! Eu ganhei-lhe e ela foi capaz de celebrar comigo! Acho que é isso que eu ando à procura: de quem celebre comigo!
Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez o que magoe e afaste não seja bem a natureza do que se sente (quem nunca sentiu inveja que atire a primeira pedra!) , mas muito mais a forma como se procura esconder (do outro e de si!), branqueando-o ou expressando-o, em bruto, de forma retorcida e impulsiva. A ser assim, talvez as únicas emoções “negativas” (que afastam e amachucam) sejam mesmo as que ficam por pensar e comunicar e que, por isso, encontram no agir impulsivo (violento e destrutivo, muitas vezes) a única forma de expressão. A ser assim, talvez o grande desafio seja mesmo o de pensarmos as emoções, de as vestirmos de palavras, histórias e relação (naquilo a que Bion chamou função α), para as podermos comunicar com toda a clareza e afeto de que formos capazes.
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.