Está de partida para um ano letivo de programa Erasmus na Universidade de Barcelona. A mãe acompanha-o às partidas do aeroporto. Como já fizera em casa, e na curta viagem de carro, desdobra-se em recomendações, enquanto chora, efusivamente, as saudades que já tem do filho. O Xavier, aparentemente indiferente à separação, puxa de um registo frio e sobranceiro, para pedir à mãe para se conter nas figurinhas. Até que, mal passa a porta de embarque, se deixa cair num choro fundo, que só conseguiu conter ao aterrar em Barcelona.
Lembro-me, muitas vezes, desta cena do filme: “A Residência Espanhola”, de Cédric Klapisch, a propósito dos adolescentes e dos pais, especialmente quando dizem: “ele/ela não me ouve” ou “ele/ela não fala comigo”. Talvez porque, à falta de uma segurança que, muitas vezes, ainda não têm, muitos adolescentes (quais Xavier, da Residência Espanhola) façam batota, ao fingirem (mal!) não quererem falar, não ouvirem ou não estarem disponíveis para serem interpelados, descodificados, compreendidos e, quando é caso disso, postos no lugar. Talvez porque, entre as mil e uma preocupações e dúvidas que, muito compreensivelmente, lhes ocupam os dias, alguns pais interpretem os chega para lá (ora silenciosos, ora impetuosos e sobranceiros) dos filhos de forma mais literal do que aquilo que, porventura, são capazes de intuir.
Afinal de contas, de forma mais clara (à medida que vamos integrando emoção e pensamento) ou mais encriptada (quanto mais nos damos a medo, na relação), adolescentes, adultos ou crianças não diferirão tanto assim no desejo profundo de serem compreendidos (pelas pessoas que verdadeiramente importam) para lá da porta de embarque.


