Depois de anos, fechada num casulo (como costumava referir-se aos anos do início da vida adulta), a Rita sentia-se a desabrochar. Entre a gratidão e a desconfiança daquilo que sentia e ousava, a espaços, pensar em surdina, nunca se atrevera a discordar do seu tutor. Nunca até ao dia em que se encheu de coragem e, com a elegância que sabe ter, lhe pôs o dedo no nariz para lhe explicar que (já) não abdica de ser ela a decidir o seu futuro pessoal e profissional. Não que não lhe tenha custado. Não que, a seguir, não se tenha sentido assaltada por dúvidas e culpabilidades várias. Afinal de contas, como poderia diferenciar-se de quem tanto lhe ensinou e já lhe tinha definido todas as coordenadas do percurso?
Muito à boleia daquele rasgo de coragem (que, paulatinamente, começou a poder sentir, primeiro, a fantasiar, depois para, finalmente, o agir), a verdade é que, agora, se sentia mais livre, mais viva, mais confiante e mais capaz.
Depressa pôs em marcha uma série de projetos que, em tempos, não passavam de uma miragem fora do alcance das competências que não podia imaginar ter. Depressa a sua inteligência, sensibilidade e capacidade de trabalho se começaram a materializar em ganhos efetivos. Tudo parecia ir de vento em popa... até ao primeiro grande embate, fruto de um falhanço (não imputável a si, em boa medida) com um cliente internacional importante.
Perante a aproximação afetuosa do marido, parecia, num primeiro momento, ter regredido anos-luz para padrões que conhecia bem – enrolou-se, no sofá, em posição fetal e enxotou-o com frieza. Mas ele não desarmou: um par de horas depois, segredou-lhe ao ouvido: “a vida é muito dura às vezes. É assim, a gente cai. E, nessas alturas, duvida de tudo. Mas, agora que desabrochaste e que percebeste que tens muito a dar ao mundo, não é uma derrota – por mais que doa, e dói muito – que te vai fazer parar. Chora o que precisares, no meu ombro, de preferência, que, a seguir, tens muitas lutas para travar”. Deixou a posição fetal, e enrolou-se no abraço do marido, a chorar compulsivamente. Cheia de energia, nos dias seguintes, sentia-se revitalizada, apesar do percalço grande. E apaixonada, muito apaixonada pelo marido de quem, tantas e tantas vezes, se sentiu desencontrada.
Tantas e tantas vezes, os acontecimentos de vida dolorosos valem (e doem) por muitos. Valem por si, pela dor que, inevitavelmente, despertam (sejam eles mais normativos ou de natureza mais marcadamente traumática). E valem (sobretudo) pelo desamparo que revelam, quando quem seria suposto sintonizar-se, acolher e segurar, nos falha (por atos e omissões). A ser assim, ter quem nos olhe alma adentro, nos acolha, segure e legende face a episódios dolorosos fará toda a diferença na hora de metabolizarmos a dor, e de continuarmos mais vivos, apesar dela.
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.


