A D. Isaura sempre se virou entre dois trabalhos e muita fibra. Nunca suportou a ideia de que pudessem faltar oportunidades ao filho que, desde sempre, criara sozinha. E, valha a verdade, para além de uma certa comodidade material (mesmo que à custa de uma ginástica financeira de que só D. Isaura parecia ser capaz), o João foi crescendo com o conforto de sentir que havia na mãe qualquer coisa de muito parecido com a capa do super-homem. Talvez por isso tenha sido tão difícil para si escolher a área das Ciências, no Secundário. A mãe, muito influenciada pela vida abastada do advogado para quem trabalha desde os 16 anos, sempre o “empurrou” para o Direito. Mas, no 9º ano, teve um Professor admirável que lhe mostrou como a Física o ajudava a entender melhor os motores e as motas de que tanto gostava. E isso terá sido determinante para subir exponencialmente a nota de Físico-Química, e fazer da área Científica uma escolha mais ou menos natural.
O Marco é um tipo de coração grande e abraço sentido. Para lá de muitas outras qualidades, talvez essas tenham sido determinantes para construir um amor vivo (mas excessivamente medroso, a espaços) com a Maria. Inteligente e sensato é um profissional muito diferenciado. Apesar do gosto pelo trabalho e das competências que indubitavelmente tem, está muito longe de gerir a vida profissional com o prazer e a serenidade que gostaria (e que, de resto, as suas qualidades justificariam). Tudo se passa como se se sentisse, permanentemente, num conflito entre o desejo de arriscar, intervir, inovar… e o medo de que tudo possa falhar rotundamente.
"Vinha estrada fora, a chorar desalmadamente. Não havia trânsito e conduzia em piloto automático. Liguei à Carla, a contar-lhe que 20 minutos antes o Pedro tinha acabado com o nosso casamento, com uma frieza no olhar que nunca lhe vira! Sim, o Pedro que ainda no fim de semana tinha estado comigo a jantar na casa dela, como se nada se passasse! Precisava de falar com alguém! A Carla gosta muito de mim. Muito mesmo. Mas ficou muito atrapalhada por me sentir assim. Fica sempre, nestas coisas. Disse-me para ter calma. Não falámos mais de cinco minutos. A seguir liguei à Francisca. Ouviu-me. Ouviu-me em silêncio. E chorou comigo. Sentia-a a chorar do outro lado, sabe? Parecia que a conseguia ver a chorar. E ainda hoje lhe agradeço! Desapareceu-me a tristeza, e a raiva, e o desespero, e todo aquele sufoco de quem tinha acabado de perder o chão e já mal sabia o caminho para casa, quanto mais o que fazer à vida? Não, não desapareceu. Mas a Francisca aguentou a minha dor. Não se atrapalhou. Não me disse para ser forte nem para ter calma. Ficou ali, a ouvir-me e a chorar comigo! Sentiu comigo! Acho que lhe vou ser grata por isso, para sempre!"
Talvez o imaginário colectivo esteja, ainda, muito dominado por uma ideia positivista de ciência, e a ideia de saúde ainda muito acoplada a um modelo biomédico, de causalidade linear. A ser assim, o sofrimento mental só poderia resultar, de forma unívoca, de umas quantas reacções bioquímicas disfuncionais, afigurando-se a medicação psicotrópica como a única forma de corrigir estes desequilíbrios.
Mas somos, felizmente, um bocadinho mais complexos do que isso! A actividade cerebral determina, em larguíssima medida, a nossa experiência, mas parece cada vez mais claro que a experiência e as relações humanas influenciam, elas próprias, aspectos muito importantes do funcionamento cerebral! É o que parece, por exemplo, decorrer de um estudo dirigido por Daniel Wiswesde, em que pacientes deprimidos melhoram significativamente os sintomas depressivos, normalizando, ao mesmo tempo, o funcionamento do sistema límbico (área cerebral muito associada ao processamento das emoções), depois de um punhado de meses de psicoterapia dinâmica.
Para além de um ar mais ou menos entediado, o Francisco trazia, por intermédio dos pais, um role de queixas. De entre as que mais os preocupavam talvez a irrequietude e a falta de atenção, (na escola e na hora de fazer os TPC) fossem as que mais se destacassem.
Era só a segunda vez que o atendia. Como na primeira, entrou na sala com um monumental ar de frete. Irrequieto e de olhar fugidio, parecia não ouvir uma palavra do que eu lhe dizia. Na tentativa de (estimulando a competitividade) esbater um bocadinho esta distância, propus-lhe uma partida de futebol (no campo improvisado em que, rapidamente, transformámos a sala). Tinha pinta e pés de jogador da bola, mas jogava com a mesma displicência com que fingia não ouvir uma palavra do que lhe dizia.
