E se marcássemos às 9?

10Dez.

A D. Isaura sempre se virou entre dois trabalhos e muita fibra. Nunca suportou a ideia de que pudessem faltar oportunidades ao filho que, desde sempre, criara sozinha. E, valha a verdade, para além de uma certa comodidade material (mesmo que à custa de uma ginástica financeira de que só D. Isaura parecia ser capaz), o João foi crescendo com o conforto de sentir que havia na mãe qualquer coisa de muito parecido com a capa do super-homem. Talvez por isso tenha sido tão difícil para si escolher a área das Ciências, no Secundário. A mãe, muito influenciada pela vida abastada do advogado para quem trabalha desde os 16 anos, sempre o “empurrou” para o Direito. Mas, no 9º ano, teve um Professor admirável que lhe mostrou como a Física o ajudava a entender melhor os motores e as motas de que tanto gostava. E isso terá sido determinante para subir exponencialmente a nota de Físico-Química, e fazer da área Científica uma escolha mais ou menos natural.

27Nov.

  O Marco é um tipo de coração grande e abraço sentido. Para lá de muitas outras qualidades, talvez essas tenham sido determinantes para construir um amor vivo (mas excessivamente medroso, a espaços) com a Maria. Inteligente e sensato é um profissional muito diferenciado. Apesar do gosto pelo trabalho e das competências que indubitavelmente tem, está muito longe de gerir a vida profissional com o prazer e a serenidade que gostaria (e que, de resto, as suas qualidades justificariam). Tudo se passa como se se sentisse, permanentemente, num conflito entre o desejo de arriscar, intervir, inovar… e o medo de que tudo possa falhar rotundamente.

05Nov.

"Vinha estrada fora, a chorar desalmadamente. Não havia trânsito e conduzia em piloto automático. Liguei à Carla, a contar-lhe que 20 minutos antes o Pedro tinha acabado com o nosso casamento, com uma frieza no olhar que nunca lhe vira! Sim, o Pedro que ainda no fim de semana tinha estado comigo a jantar na casa dela, como se nada se passasse! Precisava de falar com alguém! A Carla gosta muito de mim. Muito mesmo. Mas ficou muito atrapalhada por me sentir assim. Fica sempre, nestas coisas. Disse-me para ter calma. Não falámos mais de cinco minutos. A seguir liguei à Francisca. Ouviu-me. Ouviu-me em silêncio. E chorou comigo. Sentia-a a chorar do outro lado, sabe? Parecia que a conseguia ver a chorar. E ainda hoje lhe agradeço! Desapareceu-me a tristeza, e a raiva, e o desespero, e todo aquele sufoco de quem tinha acabado de perder o chão e já mal sabia o caminho para casa, quanto mais o que fazer à vida? Não, não desapareceu. Mas a Francisca aguentou a minha dor. Não se atrapalhou. Não me disse para ser forte nem para ter calma. Ficou ali, a ouvir-me e a chorar comigo! Sentiu comigo! Acho que lhe vou ser grata por isso, para sempre!"

29Out.

Talvez o imaginário colectivo esteja, ainda, muito dominado por uma ideia positivista de ciência, e a ideia de saúde ainda muito acoplada a um modelo biomédico, de causalidade linear. A ser assim, o sofrimento mental só poderia resultar, de forma unívoca, de umas quantas reacções bioquímicas disfuncionais, afigurando-se a medicação psicotrópica como a única forma de corrigir estes desequilíbrios.

  Mas somos, felizmente, um bocadinho mais complexos do que isso! A actividade cerebral determina, em larguíssima medida, a nossa experiência, mas parece cada vez mais claro que a experiência e as relações humanas influenciam, elas próprias, aspectos muito importantes do funcionamento cerebral! É o que parece, por exemplo, decorrer de um estudo dirigido por Daniel Wiswesde, em que pacientes deprimidos melhoram significativamente os sintomas depressivos, normalizando, ao mesmo tempo, o funcionamento do sistema límbico (área cerebral muito associada ao processamento das emoções), depois de um punhado de meses de psicoterapia dinâmica.

08Out.

Para além de um ar mais ou menos entediado, o Francisco trazia, por intermédio dos pais, um role de queixas. De entre as que mais os preocupavam talvez a irrequietude e a falta de atenção, (na escola e na hora de fazer os TPC) fossem as que mais se destacassem.

  Era só a segunda vez que o atendia. Como na primeira, entrou na sala com um monumental ar de frete. Irrequieto e de olhar fugidio, parecia não ouvir uma palavra do que eu lhe dizia. Na tentativa de (estimulando a competitividade) esbater um bocadinho esta distância, propus-lhe uma partida de futebol (no campo improvisado em que, rapidamente, transformámos a sala). Tinha pinta e pés de jogador da bola, mas jogava com a mesma displicência com que fingia não ouvir uma palavra do que lhe dizia.

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