O João acabara de sair de casa, para a Faculdade. Com a sua partida, e a dos dois irmãos mais velhos, que lhe precedera, a casa parecia, agora, grande demais para a Maria e para o Pedro. O crescimento dos filhos, os projetos profissionais e o buliço do dia-a-dia foram-lhes ocupando a vida. Já mal se lembravam do que é ter espaços a dois. Na verdade, nunca se sentiram no direito de deixar os filhos com os avós para tirarem para si um fim-de-semana que fosse, como se investir na relação de casal (e na realização pessoal) não fosse, ao mesmo tempo, investir na parentalidade.
Sempre recaíram sobre si grandes expectativas e, em boa verdade, uma espécie de pressão alta para não manchar o bom nome da família. Talvez por isso, a Sofia foi crescendo mais habituada aos quadros de honra e aos elogios de professores e contínuos, do que às correrias do recreio. Não viriam a ser muito diferentes os tempos da Faculdade: dominava as sebentas e os apontamentos, mas sobre a organização do curso (contestada por muitos dos seus colegas), a subida das propinas ou o corte nas bolsas, que atirou alguns dos seus colegas para fora da Universidade, não tinha muito a dizer. Apesar de ser a distribuidora oficial de resumos impecavelmente organizados e, de com isso, ter aproximado muitos dos seus colegas (que, de resto, a olhavam com um certo respeito) parecia guardar sempre uma distância de segurança. Era agora (que estava longe dos pais), mais do que nunca, assolada por uma espécie de fantasma mais ou menos omnipresente: O que é que as pessoas iam dizer? Como se não se sentisse no direito de ir além, um bocadinho que fosse, do escrupuloso cumprimento das expectativas que, desde cedo, se habituou a seguir sem (aparentemente!) questionar.
Muitos são os que, por esta altura, vão suspirando pelas férias, enquanto vagueiam pelas fotos de areias finas e águas cristalinas, que teimam em invadir as redes sociais.
Com o Bernardo parece ser um bocadinho diferente. Casado e pai de duas filhas, não gosta das férias: “tirar férias é um tormento. Todos os anos vamos de férias para o Algarve. Quinze dias. A minha mulher e as miúdas querem ir para a praia, passear na marina à noite, fazer churrascos, essas coisas… Eu não aguento!Tenho de trabalhar! As coisas ficavam atrasadas. Quinze dias sem fazer nada é muito tempo. E elas depois andam sempre de má cara porque quero ficar em casa a trabalhar. Não entendem”.
Nunca, até olhar nos olhos do Pedro, se tinha permitido sentir borboletas na barriga. Daquelas à séria, que põem as pessoas a imaginar tontices (próprias de filmes de domingo à tarde) e quase fazem o coração sair pela boca. Mas durou pouco a Primavera… Já o tinha ouvido, no bar, a insurgir-se contra a desregulação na alta finança. E, pior, para além da boémia (que conciliava bem com as sebentas) e do estilo alternativo, o Pedro andava nas manifestações, de megafone na mão, a gritar contra as propinas.
O teste de Português fê-lo suar mais do que a partida de futebol contra o 5º B, no intervalo grande. Como, de resto, o de Ciências, História e Inglês. Vinha de uma Escola pequenina, mesmo ao lado do infantário onde entrara com 3 anos. Os primeiros tempos não foram muito fáceis. Os pavilhões pareciam-lhe muito grandes e a fila para a cantina cheia de miúdos mais velhos, a lembrar-lhe que, à falta de melhor argumento, a idade (e a envergadura física) pode ser um posto.
