As mães têm um dedo que adivinha e super-poderes de meter inveja a qualquer super-herói. É assim quando se é pequenino. Acho que é um bocadinho assim vida fora. Mesmo quando, com a necessidade de se marcar posição, na adolescência, se vocifera, entre dentes, que elas não entendem nada sobre nada.
As mães são chatas, às vezes. É assim quando se é pequenino e obrigam a comer a sopa ou quando, na praia, fazem cumprir, até ao último segundo, as três longas e penosas horas de digestão. Acho que é um bocadinho assim vida fora, quando não se cansam de aconselhar mais uma camisola para o frio ou cuidado na viagem.
Foi crescendo rodeada de gente. Para além dos pais e da irmã, a casa estava sempre cheia. Tios, avós, primos. Todos lhe iam gabando a beleza. Puxa à mãe, dizia a avó Amélia com orgulho, atropelada, invariavelmente, pelo pai que não se cansava de sublinhar a inteligência superior da irmã da Rita (que, evidentemente, só podia ter sido herdada de si). Talvez seja um bocadinho assim em algumas famílias. Ao mesmo tempo que dão o caldo afetivo para o crescimento, parece que precisam de acantonar as pessoas em prateleiras… como se, para a beleza, não contassem também a profundidade no olhar (de quem olha e de quem é olhado) e se, para a inteligência, não fizesse qualquer diferença para quê e, principalmente, com quem e para quem somos inteligentes!
O João está a conseguir, no 11º ano, manter a média bem acima dos 18. É barra a biologia, mas é a física e a matemática que mais o encantam. É neto de um médico diferenciado. Desde que começou a brincar com o estetoscópio do avô que todos lhe vaticinaram, mais ou menos em surdina, o futuro: seria nada mais nada menos que um médico brilhante. Essa sempre foi uma meta assumida por si. Sempre até há um par de meses, quando começaram a surgir as dúvidas. A paixão por aviões (não há modelo da Boeing ou da Airbus que não descreva com uma enorme naturalidade) e por máquinas em geral têm-no feito vacilar: a Engenharia Aeroespacial ou a Engenharia Mecânica têm, timidamente, vindo a surgir como hipóteses. Para além disso, diz o João: “eu até me via a investigar Biologia Molecular, por exemplo, mas ser médico mesmo, aquela vertente mais clínica de estar o dia todo a ouvir pessoas, levar com histórias desgraçadas, não sei se é para mim”.
O “olha que eu digo ao teu pai e ele diz-tas” foi condensando, por demasiado tempo, um modelo de parentalidade (e de relação entre homens e mulheres e entre estes e as crianças) mais ou menos clivado: a mãe protegia, cuidava e dava colo. O pai punha o pão na mesa e era o rosto da Lei e da ordem familiar. A mãe era dócil, afetuosa e tinha um colo do tamanho do mundo. O pai era duro, distante e nunca se comovia. Afinal, “homem que é homem não chora” e emoções, se as tinha, era sua obrigação escondê-las atrás de um ar grave e sisudo.
A Maria vai todos os dias à Faculdade beber café. Os claustros são bonitos e é lá que encontra boa parte dos seus amigos. Mas às aulas não tem ido muito. Especialmente desde o semestre passado quando, pela primeira vez na vida, chumbou num exame. Deixou de estar a par das cadeiras, dos livros, das sebentas e dos apontamentos. Sai todas as noites, em grupos alternados. Nenhum deles aguenta o seu ritmo imparável. Acorda quase todos os dias ressacada dos packs de vodka ou dos shots com que procura adormentar mágoas e medos. Alguns amigos gabam-lhe a pedalada tal a agilidade com que salta de bar em bar, de copo em copo, de ganza em ganza… numa agitação que parece não ter fim.
