E se marcássemos às 9?

10Abr.

 Durante muito tempo foram metáforas. Metáforas do medo de danificar ou destruir: o outro, a relação (e com eles) a nós próprios. E, num ápice, o vírus, a contaminação, o dano e a destruição ganham corpo. Como se fossemos todos violentamente engolidos por um filme de ficção científica.

 E, de repente, muito do que permitia matar fantasmas – estar junto a conversar, tocar, abraçar, beijar... – dá-lhes, agora, energia para se concretizarem. Todos podemos, de facto, transportar o mal. E, sem querermos, contaminar e sermos contaminados só de tocar. Numa espécie de triunfo trágico do concreto sobre a metáfora.

01Mar.

 O piercing na sobrancelha, sente-o agora, terá sido, mais do que uma forma de chocar os pais, o modo que encontrara para experimentar contrariá-los, dizendo-lhes sem dizer: agora é “à minha maneira” (a música dos Xutos, que adotara como hino, na adolescência). Preso à obrigação (não dita) de cumprir (os sonhos que sonharam para si), de fazer (como achavam que devia fazer), ia-se sentindo, cada vez menos capaz de ser “à sua maneira” (por mais que ouvisse a música em repeat).

02Fev.

 Sempre foi uma profissional exemplar: responsável, produtiva e criativa, como pedia a empresa, no anúncio de emprego a que respondera. Nunca falhou um prazo. Nunca o tentou esticar (por mais irrazoável que fosse). Nunca o tentou adiar (por mais que, vezes de mais, o trabalho lhe entrasse descanso e lazer adentro). O lazer pelo lazer, não era, de resto, luxo a que se sentisse muito autorizada. Ao desporto, sentia-o mais como uma obrigação de manter a forma e a saúde, do que como um prazer.

19Jan.

 As crianças tendem (e bem!) a olhar para os pais como uma espécie de super-heróis, com poderes de meter inveja a qualquer Super-Homem, na hora de as proteger.  E esta espécie de idealização será fundamental para que se sintam seguras e protegidas... vida fora.  Quer isto dizer que os pais não estão “autorizados” a ter dúvidas, a sentirem-se inseguros ou a enganarem-se? Antes pelo contrário! Mas se a relação nunca cresce à margem de dúvidas e falhas, já delegar competências na autoridade mais ou menos assustadora do papão ou do homem do saco é batota! Afinal de contas, como é que encaixa, no imaginário de uma criança, esta ideia de que há uma entidade ao pé da qual os pais podem muito pouco?

12Jan.

 Fazia, invariavelmente, os melhores testes da turma. Mas os elogios da Professora embaraçavam-na mais do que alegravam.  Era como se não os merecesse. Como se só pudessem decorrer de um erro de avaliação que, claro, acabaria por ser reposto e, tarde ou cedo, resultar num vexame (Como se atrevera a imaginar/desejar ser a melhor?).

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