E se marcássemos às 9?

15Mar.

A Maria é enfermeira no Serviço onde entrara há 14 anos, com a insegurança natural do primeiro emprego. Já assistiu a recuperações quase milagrosas e já se enterneceu com os gestos de bondade e gratidão dos seus doentes e familiares, ou com a solidariedade desprendida de um outro colega. Mas, vezes sem conta, já se sentiu atropelada por uma tristeza sem fim, ao assistir, impotente, ao desmoronar, lento ou súbito, de vidas e famílias. Vezes sem conta, já se sentiu profundamente magoada pela ira de doentes ou familiares ingratos ou de chefes prepotentes.

28Fev.

Fomos aprendendo (muito em especial com os psicanalistas das relações de objeto) que o que somos deriva, em boa medida, da forma – ora mais serena, ora mais turbulenta – como dialoga a complexa rede de pessoas diferentes que guardamos dentro de nós.

Umas fazem de figurantes com mais ou menos pinta; outras de estrela polar ou de farol; umas fazem de pirilampo, outras de papão; umas fazem de assombração ou alma penada. Umas fazem-nos sentir, na melhor das hipóteses, entre o purgatório e o inferno. Outras mostram-nos o caminho para o céu. Outras, (melhor ainda!) fazem-no acontecer.

23Fev.

A Maria tem medo. O Manuel, o Francisco e o vizinho da frente também. Mas a Maria parece tolhida, dominada por ele. Tem medo de perder o emprego. Apesar de ter uma situação contratual estável, de ser uma profissional competente e de ser um quadro valioso para a empresa, tem medo que o novo chefe lhe faça a folha. Tem medo do terrorismo. Por isso, com uma culpabilidade do tamanho do mundo, não conseguiu ficar feliz quando o marido colocou no tabuleiro, em que lhe levou o pequeno-almoço à cama, bem entre os croissants e a meia de leite, dois bilhetes para Paris. O medo de andar de avião transformou-se em pânico.

09Fev.

O João tem uma mão cheia de Kgs a mais e é demasiado preso de movimentos para ser bom a jogar à bola. Nas aulas, o rubor toma conta de todo o seu rosto só de imaginar que um Professor o pode interpelar para ler um texto em voz alta, ou para ir ao quadro resolver um exercício. O Manuel e o Francisco, intuindo o pouco à vontade do João, não perderam tempo. Começaram a ridiculariza-lo, levando consigo uma parte muito significativa da turma. Chamavam-no vermelhão, a princípio. Depressa recuperaram o hit da Fafá de Belém, cantando em coro: “vermelho, vermelhusco, vermelhão” de cada vez que o João passava. Estenderam, depois, os mimos à pouca destreza física que o João expressava nas aulas de Educação Física e, daí, à forma atrapalhada como se relacionava com as raparigas.

27Jan.

Isso é tudo muito bonito, mas como é que um psicólogo pode ajudar? Pergunta a Marta, num tom provocatório, mas apelativo, de quem puxa para a relação.

 Talvez o imaginário coletivo esteja, ainda, em alguns aspetos, demasiado dominado por uma ideia positivista de ciência. Talvez a ideia de saúde mental esteja, no imaginário coletivo, ainda muito associada a um modelo biomédico de causalidade linear, em que um sofrimento mental ou uma característica de personalidade só podem ser determinados, de forma direta e inequívoca, por umas quantas reações bioquímicas que acontecem no cérebro, de forma disfuncional.

  • Morada: Avenida Doutor António José de Almeida, nº 275, 1º Esquerdo, 3510-047 Viseu
  • Emailinfo@josesargento.pt
  • Tel: 96 91 71 077 (chamada para rede móvel nacional)

 

. . .

X

Right Click

No right click