E se marcássemos às 9?

22maio

Sempre foi bom a Física e a Matemática (ainda que a História nunca tivesse deixado de ser uma espécie de paixão platónica). Nos anos do Curso, numa área de interseção entre a Engenharia e as Novas Tecnologias (o sonho de qualquer mãe, portanto), foi conseguindo conciliar algoritmos com noitadas a saltitar entre o Bairro Alto e o Cais do Sodré. “Bebia-se muito. E estava-se bem. Quer dizer…”. O Pedro sentia, na altura como hoje, uma ansiedade de fundo, ora mais miudinha ora mais ruidosa, mas sempre à espreita. À boa maneira da canção do António Variações, só parecia estar bem onde não estava, saltitando de bar em bar, à procura sabe-se lá do quê. Acabava por não se divertir tanto assim.

08maio

Começou por não querer ir às visitas de estudo. Porque os meninos cantam canções foleiras no autocarro, explica. Deixou, depois, de querer ir ao intervalo. Porque os meninos são muito brutos a jogar à bola e podem magoá-lo, justifica. Depressa deixou de querer ir à Escola. Mas, como seria de esperar, o argumento básico do “não gosto” não colheu junto dos pais. Tentou, por isso, aprimorá-lo com um sedutor: “podia ir contigo para o escritório, mamã”. Por mais que a mãe se tivesse, secretamente, sentido um bocadinho vaidosa, o argumento continuou, naturalmente, a não colher. Só havia uma solução: endurecer a luta! Vieram as dores de barriga e de cabeça (chegando, mesmo, a fazer febres ligeiras num ou noutro dia), os episódios de angústia e as crises de choro à saída de casa e à porta da Escola.

26Abr.

A Maria tem 9 anos e (quase) nunca menos de 95 % nas provas da Escola. Nas raras vezes em que ousa distrair-se um bocadinho e cometer a veleidade de ter só 85 % chora baba e ranho como se o mundo fosse acabar. É exemplar no ballet e na música. Nunca teve queixas na caderneta e a Professora, a catequista, as Professora do ballet e da música dizem, a uma só voz, que é um amor, que mais que uma menina parece uma mulher feita, de tão bem comportada. Um exemplo para os colegas, de tão sossegadinha que é, acrescenta a auxiliar que supervisiona o recreio.

12Abr.

Com apenas 18 anos de vida, o João já leva muito que contar. Está a repetir o 12º ano, depois de já ter repetido o 9º. A relação com os Professores é tensa. Com todos menos com o Professor de Matemática que, com a sua constância, afeto e firmeza, está a conseguir pôr o João no sítio, para espanto de toda a comunidade escolar. Apesar das explicações que se multiplicam (e, às quais, falta quase tanto como às aulas), as notas oscilam entre o medíocre e o satisfatório. Mas, por mais que a escola lhe doa (e dói, muito!), estará longe de ser o principal problema do João.

27Mar.

A Sara entrou na copa e com aquele olhar brilhante só dela pergunta-me, do nada: “acreditas em milagres?”. Na altura, os milagres eram, para mim, quando muito uma espécie de bruma de um passado que não volta. Entre as saudades imensas de uma grande paixão que acabou (muito contra a minha vontade) com a transparência cristalina com que começara, e o namoro com a Francisca que, valha a verdade, começou a morrer mesmo antes de nascer, aquilo que mais se aproximava de um milagre na minha vida, por aqueles dias, eram os longos cafés com a Sara, superados só, claro, pelos intermináveis, mas cada vez mais raros, telefonemas com a Inês (a grande paixão que terminou muito contra a minha vontade, com a transparência cristalina com que começara).

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