Começou por não querer ir às visitas de estudo. Porque os meninos cantam canções foleiras no autocarro, explica. Deixou, depois, de querer ir ao intervalo. Porque os meninos são muito brutos a jogar à bola e podem magoá-lo, justifica. Depressa deixou de querer ir à Escola. Mas, como seria de esperar, o argumento básico do “não gosto” não colheu junto dos pais. Tentou, por isso, aprimorá-lo com um sedutor: “podia ir contigo para o escritório, mamã”. Por mais que a mãe se tivesse, secretamente, sentido um bocadinho vaidosa, o argumento continuou, naturalmente, a não colher. Só havia uma solução: endurecer a luta! Vieram as dores de barriga e de cabeça (chegando, mesmo, a fazer febres ligeiras num ou noutro dia), os episódios de angústia e as crises de choro à saída de casa e à porta da Escola.
Talvez o que o João estivesse a querer dizer com a sua escalada de “efeitos especiais” não fosse tanto que não gosta da Escola, mas mais que não sabe o que fazer ao medo! Talvez o que mais o assuste nas visitas de estudo não seja bem a qualidade das canções, mas mais o medo de sentir a discrepância incómoda entre a descontração divertida dos colegas e a contração tensa de quem não sabe muito bem como fazer para se chegar aos outros. Talvez o que o assuste mais no futebol não sejam bem as caneladas. Talvez seja mais o medo de não saber bem como é que se pode competir, de igual para igual (de forma leal, franca e aberta), sem se ser atropelado pela dor da derrota (potencial). Talvez o que o assuste mais na Escola não sejam tanto as idas ao quadro ou os testes, mas mais a ideia de que pode soçobrar perante o insucesso (seja ele na matemática, no futebol, nas canções ou na relação com os colegas).
Talvez seja sempre um bocadinho assim. Talvez alguns movimentos altivos e sobranceiros (à boa maneira da parábola da raposa e das uvas) e a cristalização de alguns evitamentos fóbicos não sejam muito mais do que uma forma que crianças e adultos utilizam para fugir (não indo, invariavelmente, a jogo) do fantasma de poderem ser engolidos pela dor da derrota. Mas se, muito circunstancialmente, movimentos desta natureza até nos podem proteger de um ou outro “perigo” potencial, quando se tornam sistemáticos, tenho para mim, que da única coisa que nos protegem é do melhor de nós próprios!
* título inspirado no Movimento Perpétuo Associativo, dos Deolinda
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.


