Ser guardião de histórias (de vida) é um privilégio. Umas são tremendamente duras; outras nem tanto. Algumas são extraordinariamente bonitas. Outras não serão tanto assim. Algumas surgem como uma narrativa fluída e integrada; outras precisam de respirar dentro de nós até se vestirem de palavras e narrativas que lhes construam um sentido.

  Ao longo dos anos fui escutando muitas histórias de mulheres e homens muito desencontrados com o Amor, muito magoados com a pessoa com quem partilhavam a casa e as contas, mas há muito já não a cumplicidade nem a admiração. Quase sempre ponderam a separação. Nunca de ânimo leve. Nunca sem dor. Quase nunca sem terem feito apelos vários (nem sempre claros, é verdade...) para que o/a parceiro/parceira os/as olhasse olhos adentro.   

  Formas mais ou menos encapotadas de persuasão ou de conselhos de algibeira podem ser muitas coisas. Psicoterapia não serão, com certeza. Uma relação clínica pressupõe – sempre! – um exercício de liberdade e autodeterminação. Quero com isto dizer que tento sempre não me arrogar o direito de saber que decisão devem os meus pacientes tomar. Muitos foram capazes de reabilitar casamentos que pareciam condenados, devolvendo-lhes a criatividade, o encontro e a paixão que estavam moribundas. Outros tantos foram capazes de se separar, num salto de fé no Amor e de esperança no futuro.

  Em (quase) todos os que se separaram emergiu um padrão: sentiram-se desamparados por muitas das pessoas com quem contavam naquela fase difícil. Tudo parecia passar-se como se, tomada a decisão, sentissem os amigos com quem outrora partilhavam intimidade, a  afastarem-se e a olhá-los de soslaio. Como se tomar decisões em função do que sentiam fosse uma espécie de acesso de loucura (ou de crise de meia-idade). Do mesmo modo que a deceção com estas pessoa as atirava direitinhas para o fundo do ranking das pessoas que contam, aqueles que não se assustaram com as suas angústias, mágoas e conquistas ascenderam rapidamente à categoria de relações imprescindíveis.

  Não tendo a validade estatística de um ensaio clínico “randomizado”, este padrão clínico não deixa de abrir espaço ao pensamento. Um divórcio (como qualquer decisão importante) de uma pessoa próxima instiga-nos a olhar para dentro: E eu? Estou feliz com a minha vida amorosa? Revejo-me nas minhas escolhas? O que é que eu quero estar deste casamento?

  Quando não somos capazes de nos colocar em causa, tenderemos a denegar, anular ou denegrir a diferença, mirrando, com isso, a nossa capacidade de crescer. Já quando o confronto com a diferença nos faz parar para pensar as nossas escolhas e mundivisões, o nosso mundo pula e avança!

  Há cerca de cem anos aprendíamos com Freud e Piaget que ninguém cresce (do ponto de vista emocional, relacional e cognitivo) à margem do encontro com o Outro diferente. Seria a relação com o Outro (diferente) que permitiria ao bebé abdicar do narcisismo primário (como lhe chamou Freud) em favor da relação. Seria a relação com o Outro (diferente) que permitiria ao bebé abdicar do egocentrismo inicial (como o denominou Piaget) para estabelecer os limites entre o dentro e o fora, o Eu e o Outro.

  Cem anos depois - seja a propósito das escolhas de vida das pessoas, da sua orientação sexual, da sua bagagem cultural ou país de origem - continuamos, vezes de mais, a deixar-nos amedrontar pela diferença. Quais saudosistas do paraíso perdido, comportamo-nos, vezes de mais, como se a diferença fosse a responsável pelo fim do sentimento oceânico (de que falava Freud) ou da “fusão perfeita” (e idealizada!) do ventre materno; qual maçã de Adão que nos atirou para fora do paraíso.

  Sempre que, pelo contrário, tomamos a diferença como a ponte que costura o desamparo (sempre que nos guia até à relação com o Outro), e nos abre para o conhecimento e o Amor, mais aptos estaremos para fazer face às dificuldades inevitáveis da vida e para construir paraísos no encontro com o Outro.