Com amendoins e bebidas a postos, o Bruno prepara-se para ver o jogo. Não que os jogos da seleção estejam a ser vibrantes, mas Mundial é Mundial, e não quer perder pitada. Até a Sara, que não acompanha futebol, parecia entusiasmada esta manhã, para verem juntos o jogo. Até que, mal espreita na porta, e o Bruno percebe, de imediato, que vem zangada. Genuinamente interessado, corre para ela e pergunta-lhe o que se passa. À Sara não lhe sai mais do que um: “nada, estou cansada”. O Bruno não desarma e insiste: “eu conheço-te, mulher! Estás triste e estás zangada. Com aquele ar de quem foi atropelado por um autocarro. O que é que se passa?”. “Não se passa nada, já te disse. Estou cansada. É isso. Não ias ver o jogo? Vou lá para dentro”. Deita-se sobre a cama, com o telemóvel, a espreitar o instagram das amigas, invadido por fotografias das férias nas Maldivas, enquanto, revia em loop, o destrato incontinente que o chefe lhe reservara, na reunião de equipa, entrecortado por um: “há quem tenha estas vida maravilhosas. Férias maravilhosas, trabalhos fantásticos. Maridos atenciosos. Se o Bruno gostasse mesmo de mim, já tinha cá vindo perceber o que se passava!”. Enquanto isso, o Bruno há muito que tinha desligado do jogo. Encolhido no sofá, remoía o chega para lá que a mulher lhe tinha dado: “bolas, interpelei-a uma vez, interpelei-a duas vezes. E nada. Caramba! Mas tem mesmo de meter aquela cara, em vez de se aninhar no meu colo e falar?”. Nos dois dias seguintes mal olharam um para o outro, quanto mais falar.
Ao ouvir a história não tive como não me lembrar da cena típica de parque infantil: “Eu sou o Vasco. Queres ser meu amigo?” Talvez tenhamos muito a aprender com a transparência das crianças. Seja na hora de dizer gosto de ti. Seja na hora de nos zangarmos. Não deixa se ser inquietante que os adultos tenham um léxico muito mais rico e burilado do que as crianças. Mas, chegada a hora da verdade, vezes de mais, decidam que não conseguem melhor do que comunicar por sinais de fumo (na pouco secreta esperança de que o outro seja capaz de acolher, traduzir e devolver legendado), em vez de colocar as legendas todas.
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.


