Esforçou-se por me cumprimentar com a simpatia de sempre. Mas, naquele dia, não conseguia disfarçar a irritação em que se sentia mergulhada há um par de dias. Ainda mal se tinha acomodado na cadeira, e já deixara estalar o verniz. “Tenho-me sentido desconsiderada por toda a gente”, atira, fulminante. Descreve-me, zangada, uma série de incidências no trabalho: da chefe que agendou uma reunião, sem auscultar a sua disponibilidade de agenda; ao coordenador que a atirara aos leões numa reunião com a administração, passando pelos colegas que foram almoçar sem si. Parecia sentir-se como se, de repente, toda a empresa se tivesse unido para a tramar.
Com a cabeça pesada, decidiu ir buscar a filha mais cedo ao infantário (mesmo que isso lhe custasse horas extra de trabalho, noite adentro). Precisava de sentir a beleza do mundo no abraço da filha. E, na verdade, andara todo o dia consumida por uma culpabilidade de fundo. Logo pela manhã tinha-se sentido a perder as estribeiras (e a moderação dos decibéis) sem nada que o justificasse.
A pequena Francisca iluminou-se num sorriso rasgado quando viu a mãe, mas logo a seguir travou a fundo. Não foi de modas e não deixou o infantário sem ensaiar uma birra, que foi crescendo exponencialmente de exuberância, à medida que subiam os decibéis da zanga materna. Aquilo que seria, porventura, um protesto e um apelo da Francisca ao regresso da capacidade materna para a parar e serenar, foi sentido pela Maria como um ataque insuportável. Como é que a Francisca podia estar a ser tão ingrata, logo hoje que mandou o tudo ao alto para a ir buscar mais cedo? Como é que a Francisca se atrevia, logo hoje que precisava tanto de sentir a beleza do mundo no seu abraço?
Depois destes relatos irritados que lhe saíram de rajada, a Maria parecia agora mais calma. A raiva parecia ter dado lugar a uma tristeza profunda. Passavam-lhe, pela cabeça, uns atrás dos outros, vários episódios de vida em que se sentira sem espaço, incompreendida, desqualificada, injustiçada. Deteve-se num em particular: seria um par de anos mais velha do que a Francisca. Esmerou-se a fazer um desenho para o pai. Quando o terminou correu, para ele. Mal podia esperar para sentir o seu olhar de orgulho. Mas ele parou-a, de forma brusca, sem tirar os olhos da televisão, com um: “mas será que já não se pode ter sossego nesta casa, irra!”. Sem saber bem porquê, esta memória fez-lhe soar a campainha de alarme:
E se estivesse só a projetar, na Francisca, dores suas? E se estivesse a exigir-lhe uma capacidade de acolhimento que, porventura, deveria era estar a pedir aos adultos imprescindíveis da sua vida?
Talvez não haja muito como a infância (e os aspetos significativos da vida) dos adultos não se refletir, de forma muito significativa, no modo como gerem a relação com os filhos (com os companheiros, os pais, os amigos ou o trabalho). A ser assim, de cada vez que não encontram espaços relacionais para pensar a sua experiência emocional, mais próximos estarão de se tornarem prisioneiros dela. A ser assim, ora mais movidos pelo agir impulsivo, ora mais paralisados pelo desamparo e pelo isolamento, mais próximos estarão de projetar massivamente as suas experiências emocionais na relação com o outro, numa espécie de repetição contínua da mágoa.
Pelo contrário, de cada vez que as pessoas encontram espaços relacionais que as ajudem a compreender e legendar a intensidade do que sentem, qual movimento de libertação da tirania da repetição e do desamparo, mais próximas estarão da liberdade de poder escolher fazer diferente.
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.


