Depois de um dia cheio, apanha o Tomás no infantário, que recebe o pai com brilho nos olhos e um abraço apertado. Ainda têm de passar no supermercado antes de iniciarem a rotina do jantar-banho-história para dormir, que a mãe já preparara, a correr. Em direção ao corredor da fruta (que é preciso comprar para o lanche do dia seguinte), o Tomás larga a mão do pai e precipita-se corredor dos brinquedos acima, em direção ao patrulheiro aéreo, da Patrulha Pata. O pai explica-lhe que não vão poder comprar, mas o Tomás não desarma. Começa por fazer aquele olhar suplicante de derreter o mais duro dos corações. Perante o insucesso das primeiras investidas sedutoras, endureceu a luta: puxou da mais exuberante das birras que tem no cardápio, e atirou-se para o chão, enquanto esbracejava e gritava: “mas, eu quero!”.

(Quem nunca cedeu ou ficou à beira de um ataque de nervos perante tão poderosa estratégia negocial, que atire a primeira pedra!)

    As crianças saudáveis fazem birras. Comunicam, através delas, desejos, medos, frustrações, angústias e cansaços vários. E ensaiam, através delas, o testar os limites, a afirmação de uma individualidade crescente, e a capacidade de lutar por ela. Mas as birras serão, as mais das vezes, muito mais relacionais do que instrumentais: uma espécie de apelo à capacidade contentora dos pais (dos avós ou dos professores). Ou, dito de outro modo, uma espécie de grito de vida a clamar: mamã/papá, façam o favor de me assegurar, por atos, que têm a força e a segurança suficientes para me pararem quando eu exagero (muito!). E, se não for pedir demais, façam o favor de traduzir em palavras tudo isto que estou a sentir, e que só estou a conseguir comunicar por sinais de fumo com muitos decibéis. É que, caso não tenham reparado, com a frustração de não ter já o patrulheiro aéreo eu até aprendo a lidar (com a vossa ajuda, claro!). Já a ideia de me deixarem sozinho com as minhas birras, ou de vos ver sistematicamente muito atarantados com elas, sem saberem o que fazer, deixa-me muito assustado. E crescentemente desamparado: se não têm a força para me parar quando exagero (muito!), como vão ter para me segurar quando eu precisar muito, muito? À cautela, vou fazer tantas birras quantas as necessárias até me provarem, por a + b, que me protegem de tudo (incluindo dos meus exageros). E quando isso acontecer, não me levem a mal, mas passado uns tempos vou ter que voltar à carga; especialmente quando vos sentir mais inquietos. É que, como sabem, isto de se construir segurança interna é uma empreitada persistente e prolongada".

    "Pensamento à procura de um pensador" foi a expressão quase poética de Bion, que primeiro me veio à cabeça ao pensar sobre birras. Talvez as birras, (quase) todas as birras – das crianças e dos adultos – tenham esta dimensão relacional, de quem faz apelos encriptados ao outro para pensar por si, primeiro, para poder pensar consigo depois, para que, finalmente, se possa abrir espaço para a interiorização da capacidade de pensar o que se sente.

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.