Chegara a casa cabisbaixo do trabalho. A Marta, apressada a fechar mais um relatório, nem notou. Mas o Pedro não desarmou e atirou um: “estou triste. Preciso de colo”. Não que a Marta seja sempre assim. Mas, naquele dia, não lhe saiu mais do que um seco e agreste: “lá estás tu com as tuas coisas. Não vês que tenho de trabalhar?”
O Pedro andava às voltas com a tristeza – e com o desamparo pelo qual se sente engolido de cada vez que os seus apelos de acolhimento ficam sem resposta. Com a Marta e com todas as pessoas importantes da sua vida. Talvez por isso, se tenha deixado mergulhar nas histórias em que se sentiu a ir da tristeza ao desamparo.
Passavam pouco mais de duas horas sobre o momento em que o seu chão ruiu. A Marta decidira sair de casa. A caminhada errante, pela cidade, não desvaneceu a sensação de queda livre, abismo abaixo. Decidira ligar ao Manuel, amigo de todas as horas. “O Manuel é boa pessoa, mas fica muito atrapalhado”, explica-me. Convidou-o para ir a uma festa; desfez-se em frases feitas, e disse-lhe para ter calma, que mulheres há muitas. O telefonema não durou mais de 5 minutos. A esta distância reconhece que só queria ser ouvido. E poder chorar acompanhado, sem conselhos, frases feitas ou soluções milagrosas.
Conta-me, muito irritado, um outro episódio que o marcara. Quando entrou no velório da sua madrinha muito querida, o Pedro e a prima correram para os braços um do outro, desabando num choro convulsivo. Um choro libertador, explica-me: “no meio da gigantesca perda daquela mulher tão fundamental para mim - foi quase minha mãe! - soube-me bem partilhar a dor com a minha prima. Estávamos os dois a sentir o mesmo. Profundamente tristes, mas acompanhados. Até que vem uma senhora, que eu não via há uns 20 anos – e de quem, de resto nunca gostei – separar-nos e dizer: - pronto, já chega! Mas, quem é ela para dizer que já chega? Quem é ela para nos dizer que não podíamos expressar, juntos, a nossa dor? A verdade, é que quebrou o momento, e voltámos, cada um de nós, ao ar formal de quem tem que engolir a dor, conformado”.
Interpela-me, irritado: “mas porque raio as pessoas lidam tão mal com a tristeza no outro? De que é que têm medo? O que é que as assusta? Ou só têm espaço para os lados divertidos e corajosos? Estou farto de me partir ao meio, para engolir as minhas mágoas! Porque raio a Marta passa a vida a ouvir Elis Regina, Tom Jobim e Nick Cave, mas depois eu que me amanhe com a minha tristeza? Só pode contactar com a tristeza com a mediação da música? E, ainda faz aquele ar de: - lá estás tu a ser choninhas! Irra. Bem, mas se eu levei uma vida inteira para conseguir falar do que sinto, raios me partam se eu não vou exigir acolhimento nas minhas relações importantes! Passei a vida inteira a achar que a tristeza é defeito. Mas não é! É vida, quando partilhada. Foi isso que senti naquele abraço da minha prima, no velório da mulher que melhor soube dar espaço à minha tristeza”.
O problema não será a tristeza. É natural, inevitável e indispensável, para metabolizarmos a dor que alguns acontecimentos de vida despertam. A questão será (quase) sempre: ao pé de quem é que posso ficar triste? Ao pé de quem é que posso sentir? Ao pé de quem é que posso pensar? E a vida que daí brota. Ou o desamparo que daí decorre.
Já a revolta face ao desamparo será - também ela – um grito de vida e esperança: há-de haver quem me queira guardar, inteiro, dentro de si.
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, uma ou outra vez, inspirados num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.


