Sempre foi certinha. Excessivamente certinha, na verdade. De boas notas e muito poucas birras, detestava quando a avó, desde que se lembra, a apontava como exemplo para os irmãos e os primos. Talvez porque quisesse poder ser outras coisas para além da Diana certinha, a que se foi sentindo aprisionada. Nas pouquíssimas vezes em que teve a veleidade de reclamar a plenos pulmões, numa birra como deve ser, a avó, secundada pela mãe e, perante o silêncio do pai, não poupou na exuberância com que lhe mostrava a desilusão que estava a ser para todos, ao mesmo tempo que lhe acenava com o escuro da cave, para onde iam as meninas que se portavam mal.
De olhar vivo e pensamento acutilante, o Manuel foi alimentando a ideia de que a inteligência, o investimento académico e o conhecimento não eram o seu forte. Por mais que as suas competências sobressaíssem nas mais diversas áreas que não a académica, insistia na ideia de que o investimento intelectual era uma benesse só ao alcance do “lado inteligente da família”, epíteto que reservava para a irmã e para as primas. Muito mais por isso do que por falta de competências de base (que manifestamente tinha!), foi vivendo o período de avaliações como uma espécie de morte anunciada das suas já depauperadas (dizia ele!) competências. Insistia, irritado: “eu não consigo estudar! Não me concentro! Procrastino! Eu sou assim! Nunca vou conseguir!”. E, de facto, de cada vez que se sentava para estudar, mil e uma tarefas (a louça por lavar, a estante para arrumar, a caixa de email por organizar) ganhavam, de repente, uma urgência que nunca tiveram, a não ser quando lhe permitiam, uma vez mais, não pôr à prova as suas competências. Tudo parecia passar-se como se uma derrota por falta de comparência (mesmo que à custa de uma ansiedade superlativa antes dos exames) fosse, invariavelmente, mais suportável do que uma derrota (ou uma vitória!) com sangue, suor e lágrimas.
