Às 7h da manhã já se sentou em frente da máquina, que manobra com mestria. Será assim até às 16h, numa azáfama que o conforta. Ao toque de saída do turno, esperam-no os biscates com que, há muito, compõe as poupanças para acautelar o futuro. Termina o dia quase sempre depois das 21h00, numa correria para chegar a casa a tempo de ainda aconchegar o cobertor aos filhos. A mulher queria-o em casa mais cedo. As contas são apertadas, e sem os biscates talvez não houvesse lugar para poupanças, mas não há dinheiro que pague poder-se jantar em família, argumenta.
Fecha a porta do escritório com a sensação de quem fechou um dia intenso de trabalho, para abrir umas quantas mais correrias. É preciso apanhar o Martim no ATL, ir comprar tecido para o vestido que a Madalena usará na peça da escola, deixar o Martim no treino, atravessar a cidade para ir buscar a Madalena ao ballet e, na volta, passar no supermercado. A Maria, quase sempre, se vai organizando, com eficácia e prazer, nas correrias familiares do dia-a-dia. Mas o internamento de urgência da sogra e a indisponibilidade do Pedro para a rotina familiar que isso desencadeou, para além, claro, da preocupação de todos, está a tornar a semana particularmente difícil.
