A inteligência, o jeito despachado e a competência têm-lhe vindo a garantir a progressão profissional que ambiciona. Mas, na vida pessoal, tudo lhe parece emperrar muito mais do que a conta. Passou meses a suspirar, em surdina, pelo Francisco, o colega da secretária do lado, de quem se foi aproximando. Os fins de dia passava-os a espreitar o telemóvel a cada cinco minutos, como se olhando mais vezes, aumentasse a probabilidade de cair uma mensagem do Francisco. As noites, essas, passava-as enroladinha em posição fetal, a fantasiar com ele, até adormecer. Até ao dia em que o Francisco, num sopro de arrojo, se chegou à frente! Mas, perante o momento com que tantas vezes fantasiara, a Maria não foi capaz de mais do que um chega para lá assustado, numa espécie de repetição (de formatos vários) do toca e foge com que, vezes de mais, foi entorpecendo a sua vida amorosa.
Há muito que não ia a um Festival de Verão. Não que tivesse deixado de gostar de música. Mas o último tinha sido tão dolorosamente inesquecível que, nos anos seguintes, só os outdoors a anunciar as bandas a deixavam de cabelos em pé. Passaram cincos anos desde que se desunhou para surpreender o João com dois bilhetes para o esgotadíssimo concerto da banda que tinham adotado como a “oficial” do seu amor. Se a reação frouxa do João não deixou de intensificar umas quantas luzes de alerta que, há muito, vinham crescendo dentro da Maria, o pior estava para vir.
A Escola é extraordinária. Abre janelas para o conhecimento e para o mundo. E, com elas, portas para a diferença e para o pensamento. Garante muito mais igualdade de condições e oportunidades do que aquela que existe lá fora, ajudando a esbater um bocadinho o fosso das desigualdades sociais e económicas. Servirá, no essencial, para ajudar a conhecer o mundo, o outro e a si mesmo. E, por isso e muito mais é, claro, fundamental no crescimento de qualquer criança ou adolescente.
Sente-se profundamente culpado. Inferior. Com defeito. Por não conseguir controlar a ansiedade. Nem a raiva ou o desamparo. Por não conseguir controlar milimetricamente o que sente e o que pensa. Por se sentir inseguro ou, como costuma dizer, por ter baixa autoestima. Insiste na ideia de que: se eu não gostar de mim, quem gostará?, ao mesmo tempo que dá a entender que ninguém o pode ajudar, para além dele próprio... gostando de si.
Com teste positivo para a COVID-19 nos primeiros dias de Janeiro, a que se sucederam testes positivos a toda a família nuclear, depressa as fortes dores de cabeça e de corpo tomaram conta do Manuel. Mas, por mais que as dores o incomodassem muito, o que mais lhe doía era mesmo a ideia de poder ter sido ele a contaminar a família. Por mais que todos estivessem, apenas, com sintomas ligeiros, era difícil não se deixar engolir por uma angústia avassaladora que, ora em lume brando, ora a todo o vapor, o transportava para um crescendo de cenários catastróficos, que não conseguia parar: as filhas, apesar de saudáveis, poderiam, azar dos azares, acabar agarradas a um ventilador? E a mulher? O que poderia acontecer à mulher? E se as perdesse?
