E se marcássemos às 9?

15Abr.

   Exausto, em falha, a correr atrás do prejuízo, no limite, tenso, muito tenso e sozinho, muito sozinho: é assim que, há muito, o Carlos se tem vindo, cada vez mais, a sentir. Primeiro era o percurso profissional que era preciso solidificar, depois vieram as filhas cujo futuro era necessário acautelar. A seguir, à falta de melhor justificação, a vontade de se superar e fazer mais e mais. Ou, dito de outro modo: correr por correr (ou por dever), sem saber como e se pode parar.

   Nunca se esquece de um aniversário de casamento, nem de nenhuma data importante para a família. Das rosas vermelhas aos presentes caros... cumpre sempre. O que importa que seja muito mais com sentido de dever do que com a alegria e o prazer de festejar?

   Faz por ir aos jogos de basket da filha mais nova, e às audições de piano da mais velha. E, ao primeiro revirar de olhos da mulher, até deixa de espreitar o e-mail ou o whatsapp de trabalho. O que importa que nunca se deixe levar pela música ou entusiasmar com o jogo?

   Na hora de planear as férias, tranca as semanas no escritório para as passar em família, como deve ser. O que importa que a angústia se agigante nas alturas em que seria suposto descontrair?

24Mar.

   Vinha irritado com o agente imobiliário, que o tentara convencer, insistentemente que, com todos as alternativas modernas de aquecimento, já não faz sentido ter uma lareira. Mas, ao António, não havia agente imobiliário, nem simulação de poupança ou eficiência energética que o demovesse: a casa maior que procura, agora que a família está novamente a crescer, tem de ter lareira!

   O crepitar das chamas, a meia-luz, o cheiro, tudo na lareira parece ser uma autoestrada para as histórias (e as pessoas!) de aconchego que saltitam dentro de si. Lembram-lhe a velha cozinha da avó materna, que com o ar mais ternurento do mundo lhe assava, nas brasas, as melhores castanhas que alguma vez comera. Transportam-no para os Natais, na velha casa da avó paterna, com a imensidão de tios e primos (parecem sempre mais, quando somos pequenos, pontua o António) - a acotovelarem-se calorosamente à volta da lareira, enquanto britavam nozes e contavam histórias, noite dentro. E, sobretudo, despertam em si, o misto de encantamento, aconchego e segurança que sentia quando, nas suas palavras: o meu pai me ia buscar à escola, no final do dia, e a primeira coisa que fazia quando chegávamos a casa era acender a lareira. Aquilo fazia o meu dia! Recorda, ainda, os serões em família, com um olho na lareira e o outro no Roque Santeiro: morria de medo do Lobisomem. Escondia-me atrás do casaco do meu pai, mas não conseguia deixar de espreitar. O processo era sempre o mesmo: assustava-me de morte, o meu pai apertava-me contra ele, e sentia-me o menino mais seguro e corajoso do mundo. Adorava aquilo!

17Mar.

   Já tudo a irritava no marido: a inércia, o perfume, o toque, a maneira como mastigava ou adormecia no sofá, na hora da novela. Há muito que se divorciara, na verdade. Só não conseguia, ainda, imaginar-se a oficializar a separação sem que disparassem, dentro de si, todos os sinais de alarme. Foram, afinal de contas, muitos anos deste registo (cada vez mais) doloroso, mas conhecido. E para lá do Bojador do divórcio desconhecido, quantos seriam os Adamastores? Mal ou bem, sempre vão existindo discussões à volta da roupa fora de sítio, e almoços de família alargada ao domingo. E, por mais, que a Maria se vá sentindo cada vez mais sozinha, o ruído e a azáfama vão fintando o vazio (ao mesmo tempo que o alimentam) que, tantas e tantas vezes, a sufoca.

   O que restaria se arriscasse o divórcio? E, mais a mais, quem sabe se, num passe de mágica, não poderiam voltar ao paraíso perdido de uma sintonia há muito desaparecida? pergunta-se a Maria, com mais ruído do que convicção. E, mais importante do que tudo, sublinhava a Maria: há os filhos e uma ideia de família. “Ai, se não fossem os meus filhos”, atira a Maria, a fazer lembrar a máxima do agarrem-me se não eu vou-me a eles. Para, logo a seguir, com a transparência e a coragem de quem é capaz de se pôr em causa, pontuar: como se a clareza de uns pais que decidem separar-se provocasse mais estragos do que os sentir, um dia atrás do outro, a desencontrarem-se da vida. Como se a clareza de uns pais que decidem separar-se provocasse mais estragos do que a violência das escaladas verbais ou das semanas a fio sem trocarem palavra.

   Um divórcio será sempre muito doloroso. Para todos. Para os adultos que, de uma assentada, se vêm a braços com o luto de um amor, de um projeto e estilo de vida, e com a imensidão do desconhecido que se abre no horizonte. E para os filhos que, tantas e tantas vezes, se sentem enredados em conflitos de lealdades, sem saberem muito bem como podem fazer valer o seu desejo (e direito inalienável!) de terem mãe sem abdicarem do pai, e vice-versa. Será, por isso, natural – e desejável! - que os pais não deixem de se preocupar com o impacto que um divórcio poderá ter na vida de uma criança. Já esta ideia de fazer pender sobre as crianças a responsabilidade de se manter ou não um casamento, não me parece poder fazer bem a ninguém. Não fará bem aos adultos, que se escudam nas crianças, na hora de assumirem as rédeas das suas vidas. E não fará bem às crianças, que tudo o que menos precisam é sentirem-se (entre os não-ditos e uma ou outra palavra solta) responsáveis pelo olhar triste do pai ou pela solidão da mãe. Pelo contrário, crescerão melhor sempre que o pai e a mãe são capazes de - muito mais por bons exemplos do que por bons conselhos – lhes mostrar que vale a pena recomeçar as vezes que forem necessárias (no casamento, no divórcio, na vida) para, com esperança, medo e coragem, nunca deixarem de ir à luta para serem mais felizes!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente) este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais – está, como não poderia deixar de ser, muito longe de corresponder a uma descrição literal.

27Jun.

  Os bebés têm uma curiosidade natural. Comportam-se como se fossem os guardiões do espanto, da atenção e do encantamento pelo mundo e pelo conhecimento. Exploram, com a mão, cada recanto do rosto da mãe; encantam-se ao ver, pelas primeiras vezes, as folhas das árvores a abanar com o vento. Quais cientistas certificados, atiram para o chão, vezes e vezes sem conta, todo e qualquer objeto, só para o seguirem, atentamente, na sua trajetória e comportamento. Analisam (com a ponta dos dedos... e com a boca, pois claro!) cada pormenor das texturas das árvores, das ervas ou da terra. 

11Dez.

Já nos conhecemos bem. Temos, afinal de contas, passado horas a olhar para dentro um do outro. Com um sentido de humor apurado, que tem vindo a (re)descobrir em si, atira um provocatório: “ainda não matei o pai”, servindo-se do mito de Édipo que a metáfora de Freud popularizara há mais de 100 anos, para falar da forma como, invariavelmente, se foi sentindo pequenino perante a autoridade (e o desejo, mais ou menos secreto, de a afrontar).

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