Já nos conhecemos bem. Temos, afinal de contas, passado horas a olhar para dentro um do outro. Com um sentido de humor apurado, que tem vindo a (re)descobrir em si, atira um provocatório: “ainda não matei o pai”, servindo-se do mito de Édipo que a metáfora de Freud popularizara há mais de 100 anos, para falar da forma como, invariavelmente, se foi sentindo pequenino perante a autoridade (e o desejo, mais ou menos secreto, de a afrontar).

 O João é um homem sensato, afetuoso e inteligente, mas medroso, muito medroso. Recorda a forma como fugia das câmaras nas manifestações a que ia no tempo da Faculdade, não fosse o avô vê-lo na televisão, e descobrir que olha o mundo sob um espetro ideológico diferente do dele. Evoca a forma como, na adolescência, nunca conseguiu insistir com os pais para o deixarem ir para o futebol como desejava, ou como acabou a fazer o curso para o qual sentia que os pais o empurravam. Recorda, com pormenor, a audácia do primo na hora de fazer penteados que chateavam os tios, ou de afrontar o avô, nos almoços de família, com a irreverência das suas ideias sobre o mundo. Atira, a esse propósito, um cristalino: “sabe, por mais que eu pusesse aquele meu ar sobranceiro, de miúdo muito maduro, a verdade é que adorava ter a coragem que o meu primo tinha”. Já adulto, deu por si, com os mais variados pretextos, a desistir de paixões que intuía que os pais pudessem desaprovar, ou a não tomar nenhuma decisão financeira, profissional ou familiar de relevo, sem ter - ora mais tacita, ora mais explicitamente - o aval dos pais.

Na vida profissional não foi sendo muito diferente (registo que, valha a verdade, vezes de mais, foi sendo alimentado por chefias e culturas organizacionais excessivamente amigas da velha máxima: o respeitinho é muito bonito). Nunca ousava discordar em voz alta, e vivia em sobressalto com a ideia de poder desagradar às chefias, imaginando as mais diversas formas de retaliação que daí poderiam decorrer. Tudo isso, claro, acompanhado de fantasias de “um dia, um dia, encho-me de coragem e mando tudo ao alto”.

Enquanto escuto o João a discorrer sobre o que o foi fazendo sentir pequenino, medroso, oprimido, e a ligar pontas soltas, ao mesmo tempo que pode, cada vez mais, projetar, em voz alta, o sonho, o desejo e o futuro, imagino-o a cantar, de megafone na mão, numa qualquer manifestação: a liberdade está a passar por aqui*.

Talvez fiquemos todos mais seguros, livres e corajosos sempre que encontramos os espaços relacionais que nos convidam a pensar as nossas histórias, a vesti-las de palavras (configurando o que sentimos), e a ligá-las com os eixos fundamentais das nossas vidas. Talvez não seja mesmo possível mandar ao alto o que oprime, para correr, entusiasticamente, atrás do que se deseja (muito ao jeito da extraordinária campanha das frases dos pacotes de açúcar da Nicola), sem esta democratização da vida interior, que decorrerá, em boa medida, do pensar, na relação com o outro (lá fora, e dentro de nós), o que se sente.

 Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.

*Sérgio Godinho, in Maré Alta