Os bebés têm uma curiosidade natural. Comportam-se como se fossem os guardiões do espanto, da atenção e do encantamento pelo mundo e pelo conhecimento. Exploram, com a mão, cada recanto do rosto da mãe; encantam-se ao ver, pelas primeiras vezes, as folhas das árvores a abanar com o vento. Quais cientistas certificados, atiram para o chão, vezes e vezes sem conta, todo e qualquer objeto, só para o seguirem, atentamente, na sua trajetória e comportamento. Analisam (com a ponta dos dedos... e com a boca, pois claro!) cada pormenor das texturas das árvores, das ervas ou da terra. 

 Deliciam-se com o pardal que pousa na janela, com o gato que se espreguiça na varanda do vizinho, e com todos os animais que vão conhecendo. Observam as pessoas, calma e demoradamente, de alto a baixo, como deve ser. E, mais importante ainda, sentem-nas. Talvez por isso vão oscilando entre acomodarem-se serenamente na cadeira e fazerem gala na maior birra do seu portfólio, na hora de entrar no carro para ir para a creche (especialmente quando sentem que os pais não estão com a cabeça bem ali, mas já na reunião difícil que vão ter a seguir, na enésima subida da Euribor, ou no clima tenso que se gerou entre os pais no meio da correria da manhã e das colheres de papa a voarem contra a parede).

  Porque é que, vezes de mais, crescer é sinónimo de desencontro com a curiosidade, o encantamento e o entusiasmo de conhecer o mundo (e a si)?

  Porque é que, vezes de mais, crescer significa abdicar de fazer uso da sensibilidade e da intuição para olhar pelo outro adentro, (re)conhecendo-o na diferença?

  Não sei se, como diz uma frase batida, os bebés são o melhor do mundo (bom seria que fossemos todos, de todas as idades), mas que transportam, nos gestos e no olhar, uma espécie de montra viva do melhor que a Humanidade é capaz, isso já me parece inequívoco. Saibamos nós acarinhar a curiosidade, a sensibilidade e o encantamento vida fora, e mais o mundo será um lugar amigo da saúde, da beleza e do conhecimento.