Exausto, em falha, a correr atrás do prejuízo, no limite, tenso, muito tenso e sozinho, muito sozinho: é assim que, há muito, o Carlos se tem vindo, cada vez mais, a sentir. Primeiro era o percurso profissional que era preciso solidificar, depois vieram as filhas cujo futuro era necessário acautelar. A seguir, à falta de melhor justificação, a vontade de se superar e fazer mais e mais. Ou, dito de outro modo: correr por correr (ou por dever), sem saber como e se pode parar.
Nunca se esquece de um aniversário de casamento, nem de nenhuma data importante para a família. Das rosas vermelhas aos presentes caros... cumpre sempre. O que importa que seja muito mais com sentido de dever do que com a alegria e o prazer de festejar?
Faz por ir aos jogos de basket da filha mais nova, e às audições de piano da mais velha. E, ao primeiro revirar de olhos da mulher, até deixa de espreitar o e-mail ou o whatsapp de trabalho. O que importa que nunca se deixe levar pela música ou entusiasmar com o jogo?
Na hora de planear as férias, tranca as semanas no escritório para as passar em família, como deve ser. O que importa que a angústia se agigante nas alturas em que seria suposto descontrair?
A ser assim, este registo híper-adaptado parece, muitas vezes, funcionar como uma permanente fuga para a frente. Parar poderia significar ser-se engolido pelo vazio de que se procura fugir. Ao mesmo tempo que servirá de proteção precária contra a angústia, esta espécie de hiperatividade funcional parece ir delapidando os recursos relacionais, sempre que ergue barreiras várias à aproximação de todos aqueles que podem, verdadeiramente, ajudar a transformar a angústia em palavras, as palavras em histórias e as histórias em vida relacional, preenchendo de afeto e vida os vazios relacionais.
A este propósito, um estudo paradigmático da Universidade de Harvard, dirigido por Robert Waldinger, eminente psicanalista e psiquiatra, dá conta, empiricamente, daquilo que julgo vamos intuindo sempre que olhamos com atenção para dentro das pessoas: muito mais do que qualquer outra variável, o que parece fazer verdadeiramente a diferença na vida das pessoas, tornando-as mais ou menos felizes, é a qualidade das suas relações (familiares, amorosas, de amizade, comunitárias...). Ou, dito de outro modo, aquilo que verdadeiramente fará a diferença na vida das pessoas serão as pessoas das suas vidas!
Por mais que, numa ou noutra circunstância, as pessoas vão procurando mascarar a sua dor, tentando preencher de realizações os vazios relacionais (numa lógica de: já que morro de medo de não poder ser olhado, respeitado e amado pelo que sou, ao menos que seja pelo que consigo alcançar), seremos sempre (!) muito mais animais relacionais do que animais de performance!
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.


