Exausto, em falha, a correr atrás do prejuízo, no limite, tenso, muito tenso e sozinho, muito sozinho: é assim que, há muito, o Carlos se tem vindo, cada vez mais, a sentir. Primeiro era o percurso profissional que era preciso solidificar, depois vieram as filhas cujo futuro era necessário acautelar. A seguir, à falta de melhor justificação, a vontade de se superar e fazer mais e mais. Ou, dito de outro modo: correr por correr (ou por dever), sem saber como e se pode parar.

   Nunca se esquece de um aniversário de casamento, nem de nenhuma data importante para a família. Das rosas vermelhas aos presentes caros... cumpre sempre. O que importa que seja muito mais com sentido de dever do que com a alegria e o prazer de festejar?

   Faz por ir aos jogos de basket da filha mais nova, e às audições de piano da mais velha. E, ao primeiro revirar de olhos da mulher, até deixa de espreitar o e-mail ou o whatsapp de trabalho. O que importa que nunca se deixe levar pela música ou entusiasmar com o jogo?

   Na hora de planear as férias, tranca as semanas no escritório para as passar em família, como deve ser. O que importa que a angústia se agigante nas alturas em que seria suposto descontrair?

   Num mundo muito marcado pela ideia de sucesso, esta espécie de hiperatividade funcional é, vezes de mais, aplaudida. Se, num primeiro momento, até pode, de facto, representar ganhos de performance, a verdade é que parece ser insustentável a prazo. Não que ter uma vida profissional intensa, com intencionalidade, e tendencialmente prazerosa não seja muito saudável. É, com certeza! Mas, se até quem corre por gosto se cansa, correr por medo (de parar para pensar nas escolhas que se fizeram, ou na forma como se sente ou não em casa junto das pessoas com quem se vive, por exemplo) é capaz de não ser a melhor das ideias. Se, num primeiro momento, ao bom jeito da parábola da tartaruga e da lebre, até pode dar uma vantagem inicial, estará muito longe de alavancar um percurso sólido, prazeroso e intencional.

    A ser assim, este registo híper-adaptado parece, muitas vezes, funcionar como uma permanente fuga para a frente. Parar poderia significar ser-se engolido pelo vazio de que se procura fugir. Ao mesmo tempo que servirá de proteção precária contra a angústia, esta espécie de hiperatividade funcional parece ir delapidando os recursos relacionais, sempre que ergue barreiras várias à aproximação de todos aqueles que podem, verdadeiramente, ajudar a transformar a angústia em palavras, as palavras em histórias e as histórias em vida relacional, preenchendo de afeto e vida os vazios relacionais.

    A este propósito, um estudo paradigmático da Universidade de Harvard, dirigido por Robert Waldinger, eminente psicanalista e psiquiatra, dá conta, empiricamente, daquilo que julgo vamos intuindo sempre que olhamos com atenção para dentro das pessoas: muito mais do que qualquer outra variável, o que parece fazer verdadeiramente a diferença na vida das pessoas, tornando-as mais ou menos felizes, é a qualidade das suas relações (familiares, amorosas, de amizade, comunitárias...). Ou, dito de outro modo, aquilo que verdadeiramente fará a diferença na vida das pessoas serão as pessoas das suas vidas!

   Por mais que, numa ou noutra circunstância, as pessoas vão procurando mascarar a sua dor, tentando preencher de realizações os vazios relacionais (numa lógica de: já que morro de medo de não poder ser olhado, respeitado e amado pelo que sou, ao menos que seja pelo que consigo alcançar), seremos sempre (!) muito mais animais relacionais do que animais de performance!

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.