Vinha irritado com o agente imobiliário, que o tentara convencer, insistentemente que, com todos as alternativas modernas de aquecimento, já não faz sentido ter uma lareira. Mas, ao António, não havia agente imobiliário, nem simulação de poupança ou eficiência energética que o demovesse: a casa maior que procura, agora que a família está novamente a crescer, tem de ter lareira!
O crepitar das chamas, a meia-luz, o cheiro, tudo na lareira parece ser uma autoestrada para as histórias (e as pessoas!) de aconchego que saltitam dentro de si. Lembram-lhe a velha cozinha da avó materna, que com o ar mais ternurento do mundo lhe assava, nas brasas, as melhores castanhas que alguma vez comera. Transportam-no para os Natais, na velha casa da avó paterna, com a imensidão de tios e primos (parecem sempre mais, quando somos pequenos, pontua o António) - a acotovelarem-se calorosamente à volta da lareira, enquanto britavam nozes e contavam histórias, noite dentro. E, sobretudo, despertam em si, o misto de encantamento, aconchego e segurança que sentia quando, nas suas palavras: o meu pai me ia buscar à escola, no final do dia, e a primeira coisa que fazia quando chegávamos a casa era acender a lareira. Aquilo fazia o meu dia! Recorda, ainda, os serões em família, com um olho na lareira e o outro no Roque Santeiro: morria de medo do Lobisomem. Escondia-me atrás do casaco do meu pai, mas não conseguia deixar de espreitar. O processo era sempre o mesmo: assustava-me de morte, o meu pai apertava-me contra ele, e sentia-me o menino mais seguro e corajoso do mundo. Adorava aquilo!
Esta capacidade extraordinária de construirmos enredos simbólicos a partir das coisas em si, será, parece-me, uma forma de pensarmos a nossa história (ligando emoções, sentimentos, fantasias, desejos, experiências...) e de corrermos – dentro de nós, e virados para o mundo – para as pessoas e as relações que nos fazem crescer.
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente) este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais – está, como não poderia deixar de ser, muito longe de corresponder a uma descrição literal.
*Verso de Fotos do Fogo, do Sérgio Godinho


