Assumir o fim de um casamento é sempre muito difícil, diz-me a Maria. O que não esperava era sentir o apoio de grande parte daquele grupo de amigas a fugir-lhe debaixo dos pés, assim que se decidiu a iniciar o processo de divórcio. Os jantares começaram a ser desmarcados, e a sensação de acolhimento a dar lugar a uma atmosfera de censura, ora mais aberta (“tu vê lá bem. Assim, ao menos tens alguém em casa, quando os miúdos forem para a Universidade”), ora mais velada.
Com a Jacinta não parecia ser tão diferente assim. O grupo de WhatsApp, os jantares e os cafés que partilhava com os amigos que fizera no trabalho funcionavam como uma espécie de livro de reclamações partilhado, acerca de um ambiente laboral muito pouco amigo da iniciativa, do respeito, da autonomia e da saúde. Até ao dia em que a Jacinta decidiu dar um murro na mesa, e ir à procura de um emprego mais consentâneo com aquilo que queria para a sua vida. A postura de grande parte do grupo passou, ato contínuo, a ser mais defensiva, e os comentários a terem um toquezinho censório: “tu vê lá, e se não gosta do outro emprego?”.
Às vezes, vezes de mais, lidamos mal com as escolhas do outro, especialmente quando são diferentes das nossas. No Amor, no trabalho, no comprometimento com projetos cívicos ou políticos, às vezes, vezes de mais, reagimos com uma pontinha de desdém, que não será muito mais do que uma forma batoteira de evitar olhar para as nossas próprias escolhas e desejos (e para a distância entre umas e outros). E de mascararmos (mal!) a inveja que nos desperta a transparência e a coragem de quem formula e assume desejos, e é capaz de se bater por eles.
Às vezes, vezes de mais, lidamos mal com a diferença. E não devíamos! É uma lufada de ar fresco, que nos interpela para olharmos para dentro, para nos pormos em causa, para pensarmos as nossas escolhas, para sermos mais transparentes e afoitos. Assim consigamos não fugir dela.
Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.