Nunca, na história da Humanidade, teremos tratado tão bem a infância como nos nossos dias. Democratizámos o acesso à Escola. Criminalizámos maus-tratos violentos que ainda há poucas décadas eram ignorados ou perspetivados como práticas educativas aceitáveis. Fomos capazes de formalizar os direitos da criança, e de criar estruturas (a carecer de melhorias, é certo) para os proteger. Talvez com a exceção da diminuição substancial do brincar ao ar livre que se tem vindo a agravar, e da omnipresença dos ecrãs, nunca, na história da Humanidade, teremos tratado tão bem as crianças como hoje. E, ainda assim, está tudo por fazer!
Na era da Inteligência Artificial, parecemos, ainda, conhecer mal as crianças, e distrairmo-nos, vezes de mais, em relação a aspetos essenciais do seu crescimento. Às vezes por falta de conhecimento. Outras, porventura, porque os episódios dolorosos da infância dos adultos lhes entorpecem a sensibilidade e a sabedoria (construídas ao longo de milénios de cuidados às crias).
Continuamos, ainda, a ouvir interpelar as crianças, aquando da separação dos pais por exemplo, com um “não chores, olha que a tua mãe vai embora triste”. Ainda que, as mais das vezes, seja uma formulação bem intencionada, não deixa de sugerir que o mundo gire ao contrário: que, de repente, seja a criança a silenciar as próprias angústias, para serenar as angústias de quem é suposto ser capaz de a conter!
Com crianças mais desafiantes (as mais das vezes, a expressarem a sua dor e/ou a clamarem, com a (pouca) clareza que conseguem, por firmeza, colo e contenção) continuamos, ainda, a ouvir um ou outro pai ou um ou outro professor a recorrer a formulações como: vocês dão cabo de mim! Deixam-me doente! Não que os professores não tenham um papel de uma enorme exigência. Têm! Não que ser pai ou mãe não signifique, às vezes, ficar à beira de um ataque de nervos. Significa! Não que uns e outros não precisem de apoio, e de espaços que possam acolher e ajudar a pensar a cascata de emoções que cuidar de crianças pode despertar (da ternura à irritação; do encantamento ao medo de perder a cabeça). Precisam! E merecem! O que já não será muito razoável é imputar às crianças uma destrutividade que manifestamente não têm. Não, uma criança não adoece ninguém! E não, a sua função, não pode ser a de tratar os adultos como se fossem florzinhas de estufa. É aos adultos que compete terem a força e a solidez necessárias para, quando for caso disso, pararem as crianças num primeiro momento para, depois, as ajudarem a fazer melhor!
Tenhamos a capacidade de assumir que precisamos (todos!) muito de colo e de quem nos ajude a pensar a intensidade do que vamos sentindo – procurando-o em espaços relacionais adultos, mais informais (nas relações pessoais, nos pares, etc.) ou mais formais (psicoterapêuticos ou de grupos de discussão de práticas educativas, por exemplo) para que o mundo não gire ao contrário, e nos ajude a todos, crianças e a adultos, a crescer com os desafios (e o desconhecido).
Talvez nunca, na história da Humanidade, tivéssemos sido tão bons pais, avós, professores e técnicos da infância como somos hoje. E, ainda, assim, está tudo por fazer!


