O Bernardo tem demasiada história para tão tenra idade. Vítima de maus-tratos e abandonos sucessivos nos primeiros anos de vida, conserva, ainda assim, um olhar vivo e apelativo. Talvez isso o tenha ajudado a encontrar-se nuns novos pais que, embora ainda à procura da melhor forma de o ajudar a crescer, têm a alma de quem, genuinamente, está determinado a alumiar-lhe o caminho e a amparar-lhe as dores de crescimento.
A Maria estava preocupada com a filha: uma menina muito perfecionista, híper-educada, que alternava um registo sossegado e híper bem comportado com alguns, raros mas muito ruidosos, episódios de fúria. Não demoraria até a Maria, mulher sensata e afetuosa, dar por si a falar-me da forma como, às vezes, se acha um bocadinho exigente de mais, considerando que isso, involuntariamente, poderia estar a contribuir para o registo excessivamente certinho da filha. Fluente, rapidamente salta para o pequeno grande prazer que representam para si os pequenos-almoços de sábado, a sós com a filha e o marido, num café lá do bairro.
A Maria faz parte dos quadros da função pública há mais de 20 anos. Não está na secretaria por estes dias. Já conta com 3 baixas psiquiátricas no currículo. Depressão diz o relatório. O Jovenal, mais sonolento a cada dia que passa, não dorme 3 horas seguidas vai para um ano. À noite, apaga a luz e acende-se a angústia. As preocupações, que o cansaço e a ocupação vão adormentando durante o dia, vêm em catadupa, aos trambolhões, na hora de dormir. Parte da fatura tem sido paga pelas máquinas industriais: a rapidez e eficiência com que sempre as reparou e afinou têm vindo a diminuir a olhos vistos. As linhas de produção ressentir-se-ão em breve. E, com elas, a faturação da empresa.
Por esta altura, muitos são os que vão suspirando pelas férias, enquanto vagueiam pelas fotos de praias de areias finas e águas cristalinas que os seus amigos parecem pôr de propósito no facebook só para, nestes últimos dias antes do merecido dolce fare niente, fazer o relógio andar ainda mais devagar.
