A Joana foi fazer umas análises de rotina que, rapidamente se transformaram numa bateria de exames, num internamento e, pior, num diagnóstico de cancro. E num ápice, o chão ruiu, bem por debaixo dos seus pés. O marido e o filho, aterrorizados, desdobravam-se em mimos e cuidados. Mal as visitas se tornaram menos exclusivas vieram as colegas de trabalho. Bem intencionadas, às primeiras lágrimas da Joana, abafaram-na com : “tens de ser forte! Tens de te conformar! Tens de pensar positivo! Tens de reagir!”. Martelava, na cabeça da Joana, uma raiva profunda e silenciosa. Se fosse traduzida em palavras, seria, em versão soft, qualquer coisa como: “têm ideia do que estão a dizer?! Fazem uma pequeníssima ideia daquilo porque estou a passar?!” 
Viria, felizmente, a correr tudo bem com a Joana. Disse, anos mais tarde: “sentia-me muito melhor depois de chorar com o meu marido. Esses momentos davam-me força. Tenho um marido incrível!”

   Talvez a falta de espaço para a tristeza seja ainda mais sufocante quando as pessoas adoecem. É preciso pensar positivo, reagir, fazer e acontecer. Como se, de repente, não fosse a coisa mais natural do mundo uma pessoa vir-se abaixo quando, sem apelo nem agravo, lhe cai o mundo em cima. Como se, de repente, nestas circunstâncias (como em tantas outras em que o chão parece fugir bem por debaixo dos pés), não fosse a coisa mais natural do mundo sentir uma raiva a querer saltar pela boca, um medo de morte ou uma tristeza que faz do peito uma espécie de buraco negro sem fim.  

   Sugerir, à cabeça, a uma pessoa atordoada com a brutalidade das notícias, com o desgaste dos tratamentos ou com a omnipresença do fantasma de risco de vida, que tem de pensar positivo, por mais que seja bem-intencionado (e é, quase sempre), corre o risco de magoar. E estará – tenho para mim- a léguas de se sintonizar com o que as pessoas sentem.

   Ficar enredado em segredos do tu sabes que eu sei que tu sabes, em que todos fingem que não se passa nada, por mais que seja bem intencionado (e é, quase sempre) corre o risco de deixar as pessoas demasiado sozinhas com o seu sofrimento. Talvez o que as pessoas precisem, num primeiro momento, seja de um colo para chorar abertamente, para poderem ficar tristes sem a preocupação de que o colo possa quebrar. Chorar lava a alma, mas só (tenho para mim) se for num abraço que não se assuste com a tristeza nem se parta com o sofrimento. Resistir aos atalhos que atiram a tristeza (o medo ou a raiva), invariavelmente para debaixo do tapete; acolher o sofrimento, sintonizarmo-nos com ele, traduzi-lo em palavras, em gestos e em olhares… talvez seja a forma mais efetiva de ajudar a esperança a brotar. E, com ela, a proatividade e o espírito combativo.