Talvez a falta de espaço para a tristeza seja ainda mais sufocante quando as pessoas adoecem. É preciso pensar positivo, reagir, fazer e acontecer. Como se, de repente, não fosse a coisa mais natural do mundo uma pessoa vir-se abaixo quando, sem apelo nem agravo, lhe cai o mundo em cima. Como se, de repente, nestas circunstâncias (como em tantas outras em que o chão parece fugir bem por debaixo dos pés), não fosse a coisa mais natural do mundo sentir uma raiva a querer saltar pela boca, um medo de morte ou uma tristeza que faz do peito uma espécie de buraco negro sem fim.
Sugerir, à cabeça, a uma pessoa atordoada com a brutalidade das notícias, com o desgaste dos tratamentos ou com a omnipresença do fantasma de risco de vida, que tem de pensar positivo, por mais que seja bem-intencionado (e é, quase sempre), corre o risco de magoar. E estará – tenho para mim- a léguas de se sintonizar com o que as pessoas sentem.
Ficar enredado em segredos do tu sabes que eu sei que tu sabes, em que todos fingem que não se passa nada, por mais que seja bem intencionado (e é, quase sempre) corre o risco de deixar as pessoas demasiado sozinhas com o seu sofrimento. Talvez o que as pessoas precisem, num primeiro momento, seja de um colo para chorar abertamente, para poderem ficar tristes sem a preocupação de que o colo possa quebrar. Chorar lava a alma, mas só (tenho para mim) se for num abraço que não se assuste com a tristeza nem se parta com o sofrimento. Resistir aos atalhos que atiram a tristeza (o medo ou a raiva), invariavelmente para debaixo do tapete; acolher o sofrimento, sintonizarmo-nos com ele, traduzi-lo em palavras, em gestos e em olhares… talvez seja a forma mais efetiva de ajudar a esperança a brotar. E, com ela, a proatividade e o espírito combativo.


