E se marcássemos às 9?

02Nov.

A Maria tinha tido, naquela manhã, uma consulta médica a propósito de um problema incómodo, que a deixava muito embaraçada. Imaginava-a, por isso, mais cabisbaixa nesse dia. Assim tem sido, nas últimas semanas, de cada vez que tem de se confrontar com a sua condição médica. Só voltaria a arrebitar quando tudo passasse, vaticinara há um par de semanas.

18Out.

Os pais do João acabam de chegar da reunião com a Diretora de turma. Apesar dele nunca ter tido notas tão exemplares quanto a irmã mais velha, sempre se foi safando com alguma facilidade. Ainda que o seu lado irreverente lhe tenha, sempre, barrado o acesso ao epíteto de exemplo para a turma (que a irmã foi colecionando ano após ano) nunca, no seu percurso escolar, os pais tinham ouvido queixas graves acerca do seu comportamento. Agora no 11º ano, “quando devia estar preocupado com a média” nota o pai, acumulam-se as faltas. E as negativas. 

12Out.

O João está a conseguir, no 11º ano, manter a média bem acima dos 18. É barra a biologia, mas é a física e a matemática que mais o encantam. É neto de um médico diferenciado. Desde que começou a brincar com o estetoscópio do avô que todos lhe vaticinaram, mais ou menos em surdina, o futuro: seria nada mais nada menos que um médico brilhante. Essa sempre foi uma meta assumida por si. Sempre até há um par de meses, quando começaram a surgir as dúvidas.

22Set.

"Mas como é que se pode ajudar as pessoas só com conversa?" perguntava a Joana, num tom mais curioso do que desconfiado.

 O modelo positivista de ciência foi, durante muito tempo, tempo demais, alimentando a ideia de que corpo e mente seriam duas entidades rigorosamente separadas ou, quando muito, com uma ligação de sentido único (em que o biológico determinava a experiência psicológica). A ser assim, claro que sintomas de ansiedade ou agitação psicomotora, sintomas obsessivos ou de impulsividade, depressivos ou de tonalidade mais narcísica, etc. etc. só poderiam decorrer de desequilíbrios biológicos (as mais das vezes contidos no código genético) que, por conseguinte, poderiam ser corrigidos, única e exclusivamente, com medicação.

13Set.

O João anda elétrico. Tudo o entusiasma no corredor que o hipermercado preparou milimetricamente para o regresso às aulas. Os cadernos, as canetas de feltro, os lápis de minas. O cheiro novo dos manuais. É assim com o João, a Francisca e o Tomás. Mas não com a Filipa, que se arrasta pelo corredor do material escolar, entre as chamadas de atenção irritadas da mãe. A iminência do início das aulas faz soar, dentro de si, todas as campainhas de alarme. Estão a voltar as dores de barriga e as dores de cabeça. As mesmas em que, no final do ano passado, tentava apanhar boleia para não ir à escola pela manhã.
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