Desde que acabara a licença parental inicial que começaram, a três, a construir uma cantilena que os parecia sossegar um bocadinho nos momentos de separação. Com o brilho próprio de quem não cabe em si de amor e orgulho, o Francisco descreve-me a interpretação da sua filhota a cada saída sua de casa: “O papá?  O papá foi tabalhá. Mas volta sempi”!

   Lembro-me do Francisco de cada vez que ouço falar das aplicações informáticas concebidas para saber, via telemóvel, a localização das pessoas, em tempo real. Muito populares entre os pais, parecem, também, fazer muito sucesso entre casais jovens (e menos jovens), e até entre alguns grupos de amigos. Não que uma aplicação desta natureza não possa ser útil em determinadas circunstâncias. Poderá, com certeza. Mas o seu mau uso, para além das possibilidades evidentes de controlo (24 horas por dia, 7 dias por semana), suscita-me uma série de inquietações.

   Há mais de 100 anos, Freud encantava-se ao observar o jogo de um bebé com um carrinho de linhas: quando a mãe se ausentava, o bebé lançava o carrinho para fora do alcance da sua visão (balbuciando um tristonho: “longe”). Puxava-o para si, logo de seguida, ao mesmo tempo soltava um sorridente: “aqui”. Poucos anos depois, Piaget mostrava que a construção da consciência de que os objetos e as pessoas continuam a existir mesmo quando desaparecem do campo percetivo (conceito a que chamou permanência do objeto) é essencial para o desenvolvimento da capacidade de pensar.

    O bebé precisa da constância concreta e ritmada dos cuidados e mimos parentais. É a partir deles que, com o crescimento, vai interiorizando, do ponto de vista simbólico, a segurança que lhe proporcionam de facto. Não que os adultos não continuem a precisar da concretude dos mimos e dos cuidados. Continuam! Claro! Mas terão (quando tudo corre de forma “suficientemente boa”, para usar o termo de Winnicott) representações simbólicas suficientemente sólidas das experiências de amor e proteção que viveram, que lhes permitem ter uma certa dose de segurança interna, menos dependente das condições do exterior. Quando essas experiências foram de tal modo profundas, constantes e verdadeiras, as pessoas com as quais as viveram permanecem, para sempre, como uma espécie de farol ou estrela guia a apontar o caminho e a iluminar as relações futuras (o bom objeto de que fala a Psicanálise das relações de objeto; ou a vinculação segura como lhe chama os modelos da vinculação).

   Será na constância dos movimentos pendulares de presença-ausência-presença que se constrói a certeza interior de que “o pai (a mãe, o par amoroso, o filho, o amigo, etc.) volta sempi” (como nos ensinam o Francisco e a sua filhota). E se é a partir desta teia relacional (que, progressivamente, se aprofunda e densifica), que se constroem as competências relacionais, a segurança emocional, e a capacidade de pensar com profundidade e complexidade, o que terá a Humanidade a ganhar com experiências que prometem eliminar a ausência, a espera e a incerteza? 

Nota: Atendendo ao profundo respeito pela intimidade das pessoas que me dão o privilégio de guardar as suas histórias e aos princípios deontológicos a que estou vinculado (de sigilo, nomeadamente), como não poderia deixar de ser, este, como todos os textos do blogue - sendo, por vezes, inspirado num ou noutro aspeto de histórias reais - está muito longe de corresponder a uma descrição literal.