Uma infeção respiratória não tornou muito fáceis os primeiros meses da Maria. Primeira filha e primeira neta, merecia as atenções preocupadas de todos. O primo que se lhe seguiu, 9 meses mais novo, viria, anos mais tarde, a fazer furor no infantário, que isto de começar a ler aos 4 anos não é para todos. A Maria não lia, ainda. Brincava! Brincava muito! E crescia bem: com o olhar vivo e a sensibilidade apurada, o imaginário a expandir e o corpo a mexer (É para isto que deve servir o jardim de infância, não é?). Da infeção respiratória sobrava apenas, lá ao longe, uma espécie de fantasma parental de que talvez a Maria precisasse de mais “bengalas” do que os outros. Talvez um bocadinho por isso; talvez um bocadinho para “compensar” a distância nas competências académicas para o primo leitor precoce (que, com o passar dos anos, não existia de todo na realidade dos factos, mas parecia bem viva no medo dos pais), a mãe da Maria sempre fez por estudar com (por) ela.
A Maria morria de medo de, finalmente, comprovar, por A+B, que era incapaz e de, com isso, desiludir todos aqueles de quem gostava. Os pais morriam de medo de, feitas as contas, ter gerado uma filha com bom coração, mas “sem rasgo para a aprendizagem”.
As notas baixaram, de facto, num primeiro momento. Mas, à medida que a Maria ia sentindo que quem mais importa começava a acreditar verdadeiramente em si, ao mesmo tempo que começou a discorrer sobre os medos, a encontrar espaço relacional para eles, a compreendê-los e pensá-los (vestindo-os de palavras, na sua história), foram-se esbatendo as insónias, a tensão e as dores de barriga, ao mesmo tempo que ganhavam espaço a confiança e a “adrenalina” das apresentações, o gozo da criatividade e do conhecimento. E, com eles, os resultados escolares começaram a aparecer, depressa superando as performances da “Maria da bengala”.


