Gosto muito do Natal. Sempre gostei.

Mas ao lembrar-me de algumas histórias, em que a melancolia e o sofrimento parecem andar lado a lado com o Natal, não posso deixar de me perguntar: porque é que, para tantas pessoas, parece haver uma espécie de anti-Pai Natal que, no saco, traz tudo menos magia?

Quase todos os filmes de Natal que via em miúdo tinham, de uma forma ou de outra, uma cena que sempre me impressionou muito. Tanto que as fui condensando a todas numa única imagem: um tipo a vaguear sozinho pela cidade.

 

De passo arrastado e olhar baço, segue sem rumo. Até que pára mesmo em frente à janela de uma casa. Lá dentro, bem entre a árvore e a lareira (não vão os presentes fugir!) os miúdos ouvem as histórias que só o avô sabe contar, enquanto os pais, os tios e os primos mais velhos britam nozes, comem doces e brindam com o melhor vinho tinto da garrafeira da família. Os olhares brilham. Todos os olhares brilham. É noite de Natal!

Mas porque é que há alguns olhares que teimam em fazer de tipo que olha de fora da janela, e ficam ainda mais baços no Natal?!

 Mas porque é que a “magia” do Natal parece acentuar o desamparo no olhar de quem, na melhor das hipóteses, tem quem lhe embrulhe, com enfado, o mesmo presente todos os anos, mas nunca, nunca, é capaz de lhe “contar histórias” ou de lhe arrancar um “brilhozinho nos olhos”?!

Mas porque é que, às vezes, o Natal parece pôr a nu uma fratura demasiado profunda entre as luzes, o presépio, o senhor de barbas brancas que carrega um saco vermelho do tamanho dos desejos das pessoas de todas as idades… e o acumular dos imensos pequenos grandes nadas de quem nunca se sente olhado nos olhos?! 

Mas, se até o avarento e gélido Mr. Scrooge, do Dickens, se deixou contagiar pela magia do Natal, talvez o Pai Natal, a esperança e o menino Jesus renasçam um bocadinho de cada vez que dois olhares desembrulhados olham bem dentro um do outro.